Amarga decadência do açúcar

Campos, que já foi o maior produtor do país, viu dezenas de usinas fecharem nos últimos anos e busca recuperar o tempo perdido

Economia
Por Redação
26 de janeiro de 2020 - 0h01

Parque Industrial da Coagro em Sapucaia, uma de duas usinas em funcionamento em Campos (Fotos: Carlos Grevi)

por Aloysio Balbi e Ocinei Trindade

Em 2020, apenas duas usinas de açúcar operam em Campos. A Coagro e a Canabrava empregam diretamente seis mil pessoas. A estimativa é que a região conte com 20 mil pessoas envolvidas no setor sucroalcooleiro. São pequenos produtores, empregados diretos terceirizados. No início do século XX, Campos possuía 27 usinas funcionando. Era o apogeu econômico. Nas décadas seguintes, o setor enfrentou diversas crises e encolheu. Deixou de ser um dos maiores produtores do Brasil e hoje tenta se manter, apesar das dificuldades.

Em 1922, houve o maior número de usinas em Campos e região operando: 28 unidades. Abadia, Barcelos, Colégio, Caconda, Cambaíba, Conceição, Cupim, Dores, Fazenda Velha, Limão, Mineiros, Outeiro, Partido, Poço Gordo, Queimado, Sant´Ana, São João, São José, Santa Maria, Santo Antônio, Sapucaia, Santa Cruz, Rio Preto, Tocos, Tocaia, Tahy e Visconde. Com o tempo, esses nomes foram se apagando devido ao fechamento das indústrias. Nos locais onde foram instaladas, ruínas são avistadas, registradas e fotografadas por jornalistas e pesquisadores de universidades.

Em 2016, o mestre em Geografia, Igor Paolo Rodrigues, da Universidade Federal Fluminense dissertou sobre “Território e poder: as elites e a organização do território em Campos dos Goytacazes”. O trabalho acadêmico disponível na Internet aborda com detalhes a ascensão e a queda da cana-de-açúcar e da figura do usineiro em Campos e região durante o século XX. “Ironicamente, é o mesmo século do seu fim. Talvez exista uma relação estreita e até causal entre os dois fenômenos: o sucesso do setor sucroalcooleiro e do usineiro é também sua derrocada”, cita o pesquisador.

Expectativas positivas para 2020 no setor sucroalcooleiro em Campos

Para o presidente da Coagro, Frederico Paes, o declínio do setor em Campos se deu por vários fatores a partir dos anos 1980. Contraditoriamente, em 1989, mais de 10 milhões de toneladas foram colhidas com 22 usinas funcionando, a maior produção já alcançada. Segundo ele, o principal motivo da crise foi a política errônea do governo federal que penalizou demais a produção de álcool que subsidiou por muito tempo o preço da gasolina.

“Vale lembrar que 27,5% da composição da gasolina no Brasil é com álcool. Os preços ficaram muito achatados do álcool colocado diretamente nos carros no Brasil. Nos anos 2005 a 2012 houve incentivo do governo federal para multinacionais produzirem etanol no Brasil. Depois, houve um abandono do programa de etanol. As unidades passaram a produzir açúcar. Com excesso de produção e preços baixos, as unidades de Campos não conseguiram se manter. Administrações familiares também não souberam trazer uma nova dinâmica para o setor, o que contribuiu para o declínio”, avalia

Usina do Queimado na área urbana de Campos virou lugar de eventos e festas

Em 2014, o fotógrafo e arte-educador Wellington Cordeiro expôs fotos no Sesc que fez parte de atividades de pesquisas da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Ele cita uma fala do usineiro Antônio Carlos Pereira Pinto que considerava: “A usina era o centro em torno do qual girava o trabalho, a família, o progresso e o futuro”. A atividade açucareira campista foi inaugurada ainda no século XVI com a instalação de pequenos engenhos. No século XIX, período da Revolução Industrial, o setor ganhou contornos modernos que sugeriam desenvolvimento e enriquecimento. Nos anos 1990, a hegemonia da cultura canavieira em Campos se desfez. Para o professor Marcelo Gantos, “o vasto complexo arquitetônico da agroindústria sucroalcooleira em processo de abandono, deve ser reavaliado como objeto de estudo paradigmático de um tempo e de uma cultura. A imponência de suas ruínas sobrevive e ainda opera metaforicamente como referência no imaginário de sua gente”.

Ruínas do parque industrial da Usina de Cambaíba, em Campos (Foto: Wellington Cordeiro)

As memórias sobre o passado glorioso da indústria da cana de açúcar em Campos são revividas a cada visita nos locais em torno das usinas. “No parâmetro econômico foi um trágico acontecimento, pois causou sérios problemas socioeconômicos na região. Por muito tempo, foi a principal fonte de trabalho e renda para a população. As ruínas das antigas usinas são o retrato desta época de pujança e precisam ser preservadas”, considera Wellington Cordeiro.

Nomes influentes

Entre 1930 e 1950, poderosos empreendedores ajudaram a construir a história e a economia de Campos. Nomes de usineiros lideravam a lista de influências como Julião Nogueira, Francisco Vasconcellos, Olavo Cardoso, Ferreira Machado, Bartholomeu Lizandro, os irmãos Sence, Atilano Crisóstomo de Oliveira, José Carlos Pereira Pinto, Tarcísio Miranda, Barros Barreto, Jorge Pereira Pinto e Edilberto Ribeiro Castro, entre outros.

Nos anos 1970, aterrissou em Campos, pilotando o próprio avião, o alagoano Antônio Evaldo Inojosa, homem de larga influência. Foi presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), autarquia poderosa que norteava tudo que se referia à cadeia produtiva de açúcar e álcool. Inojosa via Campos como uma área fértil para o setor. Conseguiu trazer para Campos empresários do setor instalados no Nordeste como João Cleofas de Oliveira, senador por Pernambuco, e o amigo Geraldo Coutinho. Três empresários nordestinos, se fixando no interior do que era considerado na época o estado mais avançado do país, o Rio de Janeiro.

Evaldo Inojosa montou a Cooperflu, nos moldes da Coopersucar de São Paulo, entidade que reunia em cooperativa todas as usinas de Campos. Sentido que o setor agonizava, começou a promover anualmente em Campos o Encontro Nacional do Açúcar e Álcool, onde palestraram prêmios Nobel de Química, como o norte-americano Melvin Calvin e ministros da área econômica como Delfin Neto e Maílson da Nóbrega.

Através de sua influência, Inojosa conseguiu com o governo verba bilionária para as usinas da região. Mesmo assim, o terreno fértil que ele avistara parecia se tornado movediço e quanto mais o setor de movimentava, mais afundava. Para alguns, um conjunto de fatores que ia desde incompetência administrativa até a aplicação de dinheiro destinado ao parque fabril em outras atividades, contribuiu. Sendo proprietário da usina de Outeiro, percebeu que o álcool poderia ser a solução de longo prazo para o setor. Usou outra vez sua influência para obter empréstimos para a irrigação das terras em Campos. Porém, apesar do empenho, a usina de Outeiro também encerrou as atividades.

Dramas e ruínas

Monumentais torres que ainda ficaram de pé na Usina de Cambaíba em ruínas

A Firjan considera que, historicamente, em regiões industriais degradadas a recuperação se fez dando novos usos aos parques industriais. Recuperar a produção nestas plantas em Campos pode ser inviável. O empresário Frederico Paes concorda sobre esta questão.

“Essas usinas não voltarão a moer. Foram sucateadas e desmanchadas. Algumas poderiam ser colocadas como museu ou algo parecido. Elas se tornaram inviáveis economicamente. Recuperar esses prédios é muito difícil”

A Usina de Santa Cruz em ruínas faz parte de um novo capítulo histórico da decadência do setor em Campos. O parque industrial e cerca de 200 imóveis serão leiloados em São Paulo no dia 5 de fevereiro.

Expectativas

Para o presidente da Firjan em Campos, Fernando Aguiar, o setor sucroenergético vive um período de retomada, apesar de todas as crises vividas pela indústria no passado recente. “Ainda que não tenhamos uma safra do tamanho do nosso potencial, o sindicato do setor aponta para um aumento do plantio com bons resultados na produção de açúcar/etanol, em boa parte pela recuperação dos preços. A Firjan considera este setor extremamente relevante para a região, haja vista a influência positiva no saldo de empregos que apresenta todos os anos na época da safra”, explica.

Fernando Aguiar acredita em uma nova fase no âmbito federal em relação a incentivos e financiamentos. As empresas estão com esperanças renovadas, embora as ações específicas para o setor em nossa região ainda sejam tímidas. O Estado do Rio recentemente anunciou 30 milhões de investimento para o setor e vem mantendo a política fiscal de proteção às usinas fluminenses. No âmbito municipal não há no momento política para o setor”, afirma.

Frederico Paes lembra o período de seca de 2014 a 2018 que prejudicou o setor. Para 2020, com previsão de boas chuvas. “Os preços do açúcar no mercado internacional têm boas perspectivas. Esperamos uma boa safra com 20% a mais que no ano passado. Em 2019, a Coagro conquistou em parceria com o Grupo MPE o arrendamento da Usina Paraíso. A gente entende que no momento é melhor o parque industrial não funcionar. Conseguimos conquistar toda a cana do entorno dos produtores da região. Arrendamos 9 mil hectares do Grupo Othon. Parte dessa terra será plantada e esperamos colher mais cana em 2020. No ano seguinte, esperamos colher mais de um milhão de toneladas e triplicar a produção nos próximos anos”, aponta.

O presidente da MPE Agropecuária, Renato Abreu, com negócios na Bahia e no Mato Grosso do Sul, resolveu investir ainda mais em Campos. Ele acredita principalmente no etanol, e investe no plantio de variedades adequadas de cana-de-açúcar. “Se houver uma oferta de matéria-prima na escala necessária para atender a indústria, o setor, aos poucos, irá recuperar os bons tempos, gerando riqueza e empregos. Hoje, o segmento está automatizado no que se refere ao corte de cana-de-açúcar usando colheitadeiras mecânicas. Mesmo assim, no período de safra que dura em média sete meses, gera mais de quatro mil empregos diretos”, conclui.

Galeria de fotos antigas de engenhos e usinas de Campos

cedidas por Leonardo Vasconcellos