Campos dividida entre o avanço e a estagnação

Cidade encerra 2019 com melhoria da atividade privada mas sem esboçar qualquer reação por parte da administração pública

Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
15 de dezembro de 2019 - 0h01

O município de Campos vai se despedindo de 2019 ainda sem motivos para soltar fogos. Contudo, na comparação com os primeiros meses do ano, vemos indícios de retomada da atividade econômica, particularmente no setor de serviços, onde os avanços projetam um 2020 animador.
Ainda no âmbito da atividade privada, cabe ressalvar que se faz aqui um mero apanhado, haja vista que individualizar o tema exigiria texto técnico – o que não é o caso.
Todavia, para que não se coloque diferentes gatos num mesmo balaio – o que seria injusto – há de se observar que alguns grupos empresariais, com ou sem crise, continuaram crescendo, produzindo e gerando empregos. São os que, com trabalho diferenciado, passam imunes à tempestade.
A maioria, contudo, sofre quando a economia entra em declínio – alguns ficam pelo caminho – e retomam na medida que os índices econômicos melhoram.
Assim, feitas as ressalvas de que nem todos afundam na crise e que nem todos conseguem retomar quando passada a turbulência, voltemos ao foco da matéria em sua parte mais ingrata, que trata da administração municipal.

Cidade amarga crise sem precedentes
Se no campo privado vimos sinais reativos, no âmbito do executivo municipal o ano começou ruim e piorou. Além de não romper as barreiras da estagnação, a muralha só fez crescer. A conclusão é que a soma dos infortúnios desfaz qualquer sinalização de que 2020 possa ser melhor.
E neste particular surge uma espécie de pessimismo subliminar: como não se vislumbra ao menos ideias ou projeto em favor deste ou daquele segmento, a própria ausência de otimismo conduz à perda de confiança e ao desânimo.
Não se tem notícia, ao menos em sua história recente (e por recente entenda-se 50-60 anos), de Campos mergulhada em tamanha crise e sem nenhuma expectativa de reversão.

Saúde – A crise na Saúde Pública não tem precedentes. Em agosto, o Cremerj apontou mais de 300 “inconformidades” no Ferreira Machado e no Hospital Geral de Guarus. Os médicos entraram em greve, voltaram depois de quase 30 dias, mas não se sabe até onde os graves problemas foram resolvidos.
Logo depois, outra situação gravíssima: sem receber as verbas municipais, os hospitais contratualizados entraram em estado de greve e tiveram que ingressar na Justiça para receber. Os funcionários chegaram a ficar três meses sem salário.
Em novembro, parte do teto do HGG desabou, e o que trouxe alívio para uma fatia da população foi o anúncio do governo do Rio de Janeiro da liberação de R$ 5 milhões para a reforma do hospital, com a promessa do governador de que ele próprio irá acompanhar as obras.

13º Salário – Também em novembro, a Prefeitura informou que o 13º dos servidores ativos seria pago em duas parcelas: a primeira, em fevereiro; a segunda, até maio. “Até maio” significa cinco meses de atraso para o servidor que já está há três anos sem aumento. Ou seja: sem reposição das perdas salariais.
A questão do não pagamento do 13º foi parar na Justiça, em Ação Civil Pública promovida pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais. O juiz da 5ª Vara Cívil de Campos emitiu na quinta-feira (12) mandado de intimação para que o pagamento em parcela única seja feito até o dia 20 “sob pena de desobediência e demais sanções legais”.

CDL-Campos – Na tentativa de estimular as vendas de Natal possivelmente prejudicadas com o anúncio do não pagamento do 13º salário, a diretoria da CDL-Campos resolveu arcar com as despesas e realizar a decoração natalina deste ano, com a montagem de uma árvore de Natal e da Casa Papai Noel na Praça de São Salvador.
Além de estimular o consumo, a iniciativa visa imbuir nas pessoas o espírito natalino, lembrando a todos que é tempo de presentear.
O executivo municipal – Por óbvio, a toda população interessa que o governo seja eficiente e capaz para que todos tenham qualidade de vida. Do mais abastado empresário, ao funcionário mais simples; dos servidores graduados, aos de menor escolaridade.
E ninguém desconhece que o governo assumiu em 2017 a prefeitura envidada, bem como o estrago produzido pelas frequentes quedas de arrecadação.
Contudo, há de se fazer algo diferente do que apenas reclamar. Bater, infinitamente, e do mesmo jeito, na tecla do problema, não resolve. O que resolve é solução. É buscar solução. Quando nada, ao menos tentar.
Se não resolveu, então não resolveu. Mas se terá feito tudo – tudo – para conter a crise. E o que há para se fazer, só será feito por quem tem capacidade para tal. Querer, só, não basta. É necessário querer e poder.
O discurso anterior da ‘venda do futuro’, substituído pelo da “nova situação financeira”, ultrapassaram a data de validade.
O que a cidade vem sofrendo está à mostra nas ruas sujas, esburacadas e mal iluminadas. Na periferia abandonada e na boca do povo, do simples do povo.
O governo tem apenas mais um ano de administração. Se o prefeito andar pelas ruas como andou quando candidato, verá que com o “pouco” de royalties que está recebendo, e que lá atrás não recebia nada, dá pra fazer muito.

O lado de Campos que vira a chave
Se os tempos ainda são de vacas magras, por outro lado Campos – a exemplo de quase todas as cidades brasileiras – tenta se agarrar ao pouco que a melhoria dos índices econômicos vem proporcionando. Até porque, de pouco em pouco, chega-se longe.
O juros seguem em queda, a produção industrial em alta, o setor de serviços subiu sobremaneira, o agronegócio vislumbra novos recordes e o comércio prevê a melhor venda dos últimos cinco anos. É neste contexto que a iniciativa privada vai deixando para trás os amargos anos, em particular os de 2016-17, para fechar 2019 no azul e programar um 2020 de crescimento vigoroso.
Os exemplos estão em todos os lados e a olhos vistos. Na construção civil, depois de cinco anos de demanda reprimida, os imóveis voltam a ser procurados, encontram compradores, e novos empreendimentos estão a caminho. Campos acaba de inaugurar o Guarus Plaza Shopping, um novo supermercado está chegando, o setor imobiliário vem absorvendo pontos comerciais e casas disponibilizadas para aluguel, a Black Friday de novembro foi recorde, as lojas apostam em crescimento da ordem de 12% no Natal e – para dar apenas um exemplo – o ramo de farmácia parece abrir uma unidade a cada mês, particularmente as redes Pacheco, Pague Menos e Droga Raia.
Enfim, enquanto o executivo municipal não encontra seu caminho, o privado vai fazendo sua parte.