Jovens que investem na Bolsa

Preocupados com o cenário econômico do futuro, eles não têm medo de arriscar em busca de alto rendimento

Geral
Por Ulli Marques
2 de dezembro de 2019 - 12h55

(Foto: Carlos Grevi)

Foi-se o tempo em que juventude era sinônimo de irresponsabilidade, ócio e puro divertimento. O que se vê hoje, diante de uma conjuntura econômica instável, é o contrário disso: jovens que se mostram cada vez mais preocupados com o futuro, focados em seus objetivos e conscientes das ações que os levarão a alcança-los. Tal mudança de paradigmas também pode ser observada na Internet: se antes pensava-se que era um ambiente permeado de inseguranças, nos tempos atuais é visto também como o caminho utilizado por aqueles mesmos jovens para alcançar a tal linha de chegada mais seguros e livres. Um exemplo desse movimento é a propensão aos investimentos financeiros. São muitos os jovens que atualmente buscam nas ferramentas digitais o conhecimento necessário para mergulharem na bolsa de valores e garantirem a realização de seus sonhos.

Se o primeiro passo dos jovens deve ser a conquista de uma vaga no mercado de trabalho, o segundo é selecionar uma parte do salário para fazer esse dinheiro trabalhar para eles. Foi seguindo essas diretrizes que a estudante de moda e teatro, Gezebel Nunes, de 23 anos, adentrou o mundo das finanças. Ela tem três metas claras: quer fazer sua primeira viagem ao exterior em no máximo dois anos, abrir o seu próprio negócio nos próximos dez, e não depender de recursos do Estado quando chegar à terceira idade. Munida dessas certezas, quando conseguiu um emprego, não pensou duas vezes. Primeiro, investiu parte dos vencimentos em renda fixa (títulos públicos e privados). Depois, quando observou que os lucros não eram vantajosos, decidiu arriscar mais e agora investe também em renda variável (ações).

Para ela, esse movimento da juventude de hoje é uma resposta às inseguranças políticas e econômicas no Brasil. “Hoje não sabemos quando vamos nos aposentar, sequer se chegaremos a receber essa contrapartida. Cabe a nós, jovens, estarmos cientes disso e agirmos de modo a não ficarmos à mercê de um mercado futuro e misterioso”, afirmou.
Consciente dessas indefinições, ela foi buscar ajuda na Internet e lá encontrou todas as informações que precisava para começar a investir. E o melhor: de graça. Blogs especializados, vídeos no YouTube, artigos em revistas voltadas para a área econômica, consultorias online… Com todos esses recursos à mão, o jovem só não aprende a investir se não quiser. Mas Gezebel quer: “Assisto aos vídeos, acompanho as notícias, pesquiso empresas de capital aberto e suas influências no mercado… Para quem não entende nada de finanças, esse assunto pode parecer vasto e complexo, mas hoje são muitos os blogueiros, por exemplo, que se dedicam a fazer esse trabalho de mediação. Basta que tenhamos curiosidade para buscar e vontade de aprender”, declarou.

Em meio a essas buscas, Gezebel encontrou corretoras de valores que não cobram taxas, ações de empresas que estão se valorizando e, vendo o seu dinheiro render, a motivação aumenta: “Sempre tive facilidade para juntar dinheiro, mas guardava-o em cofrinhos. Hoje eu sei que era um grande desperdício… Ainda bem que me atendei a isso cedo”, comentou.

Ainda mais jovem que Gezebel, Pedro Paes, de apenas 20 anos, também já é considerado um investidor no mercado de ações. Focado e curioso, ele disse que essas são características da sua geração. “Geralmente somos também mais ansiosos e preocupados com o nosso futuro porque vemos que ele pode não ser tão bom se não começarmos a agir agora”, comentou.

Aos 15 anos, Pedro teve o primeiro contato com o mundo dos investimentos. Muito novo e sem dinheiro, aquele interesse inicial ficou adormecido até que este ano ele decidiu que iria agir. Colocou todas as economias de seus ainda primeiros salários em renda variável. Eram R$ 300 que, por falta de conhecimento, transformaram-se em R$ 290. “Perdi R$ 10 de primeira, mas essa perda foi essencial para que eu aprendesse a lição e começasse a estudar mais sobre o assunto”.

Hoje, Pedro é um aficionado no mercado de ações. Ele aprendeu a ler os gráficos que permitem ver os lucros provenientes dos aportes financeiros alheios e, assim, pode escolher a dedo as ações daquelas empresas que lhe darão uma rentabilidade vantajosa. Seguindo esse caminho, Pedro já ganha 5% de lucro ao mês; número expressivo para quem começou há tão pouco tempo.

Ele também tem objetivos definidos: quer receber, passivamente, só com o lucro de seus investimentos, mais de um salário mínimo por mês até, no máximo, cinco anos. Essa meta é o caminho para outra ainda mais ousada: viajar o mundo sem preocupações financeiras. “Se eu me manter firme nesse propósito, essas metas nem serão tão ousadas quanto parecem”, disse, otimista.

Quando questionado sobre qual conselho ele daria para alguém de sua faixa etária que ainda não conhece esse universo, Pedro foi incisivo: “Aja! Muitos falam que querem investir, mas deixam para depois e poucos são os que, de fato, têm coragem para começar. A gente não pode ter esse medo quando o assunto é o nosso futuro. Precisamos agir porque o tempo corre… E amanhã vamos pensar que deveríamos ter começado agora”, concluiu.

Especialista

Estudos indicam que apenas 1% dos aposentados do Brasil são independentes financeiramente. Para o economista Sandro Figueredo, tal estimativa mostra que, no passado, esses idosos não tinham o mesmo ímpeto que os jovens de hoje. “Eles estão percebendo que podem abrir seus leques de oportunidade e que não precisam seguir os mesmos caminhos que seus pais seguiram para adquirir uma tranquilidade no futuro. Eles querem estudar, querem ingressar no mercado de trabalho, mas sabem que podem mais”, observou. Mas diante de tantos desejos, possibilidades e informações, como manter o foco? Segundo o economista, Gezebel e Pedro estão no caminho certo: “É preciso que o jovem tenha um objetivo claro e entenda o propósito de cada aplicação. Não é inteligente buscar somente a alternativa que parece render mais. É necessário ter uma visão ampla: alguns investimentos são para curto, outros para médio e outros para longo prazo. Tendo bem definida a finalidade daquele investimento, menor é a chance de errar”, explicou Sandro.

O economista destaca ainda a necessidade de olhar para o futuro, algo que os jovens Gezebel e Pedro já sabem. “A renda variável, por exemplo, é excelente quando queremos ganhar mais dinheiro em um curto espaço de tempo. Mas, quando o cenário é mais distante, como a aposentadoria, é importante que parte de sua carteira seja composta de investimentos de renda fixa que, embora não gerem um grande lucro atualmente, são mais seguros”, lembrou.

Sandro também dá três dicas aos jovens: “A primeira é: evitem deixar seu dinheiro em bancos tradicionais, aqueles que a gente chama de ‘bancos varejo’. Esses pagam menos pela quantia investida e geralmente cobram altas taxas. Não caiam na lábia dos bancários, eles precisam bater metas e não estão preocupados com o seu futuro. A segunda: esteja bem guiado, seja por um economista, por um trader, por um analista técnico… Esses profissionais conhecem melhor o caminho e, quando sérios, poderão evitar que você sofra possíveis desgastes. E são muitos os que compartilham seus conhecimentos na internet. Seja curioso. E a terceira dica é: diversifique sua carteira. Não coloque todos os ovos na mesma cesta. Os riscos existem, seguindo esses passos, eles são menores. E quando você investe em quem você será no futuro, a sociedade como um todo acaba ganhando. Gera-se menos custos para o Estado, consome-se mais, e a roda da economia segue girando”, concluiu.