Assume o cargo, mandato embaixo do braço e olhos fixos na eleição seguinte

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
1 de dezembro de 2019 - 0h01

Inversão de prioridade

 

Via de regra, o político vence a eleição, toma posse, coloca o
mandato debaixo do braço e passa a mirar no pleito seguinte

 

Há situações que por mais que se apresentem com frequência, não deixam de ser erradas. E essas mesmas situações, dependendo das circunstâncias, de ‘erradas’ passam à condição de absurdas.
Olhando para a questão em concreto – que percorre, com surpreendente normalidade, não apenas a Presidência da República, como, também, as esferas estadual e municipal – causa perplexidade que num Brasil que luta desesperadamente para livrar-se do fantasma da recessão, que quase virou depressão e deixou sem emprego 14 milhões de brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro, com 4 ou 5 meses empossado no cargo, já estivesse pensando na reeleição, – que é um projeto pessoal.
Ora, não estamos a falar de uma crise qualquer ou de situações isoladas, mas sim de um grande baque econômico misturado ao maior escândalo de corrupção do mundo, o petrolão.
Falamos, portanto, de caos econômico e político, que não começou pequenininho mas, bem ao contrário, já ‘estourou’ gigantesco em 2015 e até hoje se faz sentir.

 

Relembrando… – O País viu o abismo de perto; esteve em sua beirada. Pessoas endividadas, fechamento de milhares de estabelecimentos comerciais, indústria em completa retração, falências, queda do PIB, juros de 14,25%, perda de confiança, desemprego e empobrecimento da população.
Do lado político, a descoberta pela Lava Jato de feroz assalto aos cofres públicos levou ex-governadores, parlamentares, ministros e ex-ministros para a prisão, juntamente com gigantes da construção e de outros segmentos. Paralelamente, o impeachment da presidente Dilma, seguido das denúncias apresentadas contra seu sucessor, Michel Temer, e os processos que levariam à condenação e à prisão de seu antecessor e padrinho, o ex-presidente Lula da Silva. É pouco?

 

Olhando para hoje

Resta claro pelo retrospecto, não tem cabimento que o Palácio do Planalto já esteja olhando para 2022 enquanto 2019 ainda não se livrou por completo das amarras que o prendem àqueles anos mais agudos.
O presidente Bolsonaro tem uma agenda econômica difícil pela frente. Foram dados os primeiros passos? Foram. Mas o longo caminho a trilhar é bem maior do que o já percorrido. O presidente não foi eleito para tentar colocar seu filho na embaixada americana ou viabilizar seu projeto político de 2022. Foi eleito para trabalhar pelo Brasil agora. Para cuidar que o País consolide a reversão do quadro econômico desfavorável o qual – reconheçamos – foi iniciado por Temer, e para assegurar que o cenário de confiança plantado não se perca.
Não se está a dizer que não possa fazer política. Entretanto, há momentos em que ‘fazer política’ é apenas administrar, visto que não há espaço para outro objetivo. É uma questão de prioridade, onde ‘distrações eleitorais’ não são bem vindas.

 

Bolsonaro e Lula querem um ao outro

Enquanto a política brasileira não abandona a prática de ‘lançar’ prematuramente candidatura de quem tem o mandato inteiro pela frente, nos bastidores Bolsonaro e Lula da Silva esboçam um duelo visando 2022.
Do ponto de vista exclusivamente político, Lula pode sonhar com o pleito. Não tendo cargo, não é alvo das objeções aqui enumeradas. O mesmo não vale para o presidente Bolsonaro, por motivo oposto.
O curioso é a bagunça eleitoral da hipótese: Hoje livre, Livre permanece enquadrado na Lei da Ficha Limpa, visto que recentemente o TRF-4 manteve sua condenação. O petista aguarda o julgamento dos recursos, mas continua impedido de disputar eleições.
Num outro cenário, ainda que obtenha sucesso nos recursos, poderá ser barrado mercê do resultado das demais ações que estão na fila.  Naturalmente, no caso de virem a julgamento.

 

Polarização como estratégia

O que não se fala em público é justamente o que mais se projeta intramuros: Bolsonaro não fez força para que o STF mantivesse o entendimento de prisão em 2ª instância porque prefere Lula solto para 2022, apostando ser mais fácil reunir sua tropa se do outro lado estiver o ex-presidente petista. Afinal, para os bolsonaristas ferrenhos, nada pior que o PT de volta ao Planalto.
Por seu turno, Lula faz a mesma aposta e teria, inclusive, instruído que o partido não adote nenhuma tese de impeachment. Prefere disputar a sucessão contra um presidente que, em sua avaliação, deverá estar desgastado após 4 anos. Logo, ambos estariam adotando como estratégia a polarização.

 

‘Adiantar’ pleito é desvio de atribuição

Da mesma forma que há 20 anos se fumava em avião e hoje o cigarro é proibido até em bar – caracterizando uma guinada surpreendente de comportamento – há de chegar o momento em que ‘período eleitoral’ terá contornos rígidos e bem definidos. Pela legislação, definido está. Ocorre, contudo, uma tolerância enorme e muita interpretação sobre suas fronteiras.
Ao contrário da prática corriqueira, o correto seria que detentores de cargos eletivos só cogitassem de eleição no próprio ano do pleito, lembrando que ‘cogitar’ não significa ‘fazer campanha’.
Evidente que candidatos sem mandato se beneficiariam por não estarem na referida condição. Mas, de toda sorte, o equilíbrio se daria justo por isso.

João Dória – Num caso recente e que envolve nada menos que a maior cidade do Brasil, João Dória foi eleito prefeito de São Paulo prometendo cumprir os 4 anos de mandato. Um ano e dois meses depois, anunciou que deixaria o cargo para concorrer ao governo do estado. E ponto. Disse uma coisa, fez outra, e tudo certo.