Solucionar ao invés de enfatizar o problema

Livrar-se da má vontade e da burocracia inútil é o desafio que nos impõe

Artigo
Por Guilherme Belido
6 de outubro de 2019 - 5h01

Você é o seu desafio

Quando falamos em ‘anos 20’, logo nos vem à mente os calhambeques da época, os salões requintados palcos de festas grandiosas, os penteados de ondas vincadas com muito laquê e os filmes de Marlene Dietrich.
Pode parecer estranho, mas a década de 1920 ficou conhecida como “anos loucos”, marcada por mudanças de valores, grande consumo de álcool e cabarés.
Alguns a denominaram de “a década perdida”, por considerar o modo de vida superficial, de excessos e muita boemia.
Mas rapidamente se aproxima o tempo em que a menção à década de 20 não vai estar mais ligada ao passado, mas ao futuro – quase presente – com todos os desafios, incertezas e incoerências dos dias atuais.
Logo – e agora, sim, entrando na proposta do texto – deixemos de lado os velhos anos 20 e seus companheiros de século e tratemos dos anos vinte deste século, que estão logo ali na esquina.

Indo direto ao ponto, convém advertir que parte do mundo, incluindo o Brasil, vive um período de transição, com forte inclinação ao sempre perigoso recrudescimento.
Ver os Estados Unidos, o país que sempre liderou a luta em prol dos direitos fundamentais e da liberdade, eleger uma figura como Donald Trump, é motivo de reflexão.
Simples: da mesma forma que com Obama o pêndulo subiu muito para um lado, ao voltar fez o sentido contrário com a mesma intensidade. E no Brasil aconteceu, parcialmente, a mesma coisa.
Mas se desta questão a política terá que se incumbir e resolver, no horizonte mais amplo os passos iniciais caberão ao simples do povo, que nos ambientes familiar e de trabalho – nas relações interpessoais e na sociedade como um todo – terá que virar a chave para vencer as adversidades que se impõem, entre elas a intolerância, o preconceito, a falta de respeito ao próximo, o desprezo pela coisa pública e, em especial, a desinformação.
Logo, cada um de nós e todos somos nosso maior desafio.

 

Entender, primeiro, que é preciso entender

Se em vários índices o Brasil exibe posição de ‘país em desenvolvimento’, no âmbito social é drasticamente subdesenvolvido.
A compreensão desse fato é pré-condição para qualquer avanço: consciência do próprio desconhecimento e necessidade de informar-se.
Má vontade, incapacidade, burocracia, fazer questão de manter o excesso de exigências e regulamentos quando dispensáveis, inclinação em livrar-se daquele que legitimamente solicita antes mesmo de inteirar-se da solicitação…. enfim, a negativa pela negativa – ‘característica-mor’ do inútil.

Sensibilidade

Numa lista quase interminável do que não é produtivo, ao jovem que caçoa de seus avós, ou de seus pais, por não saberem navegar na internet, cabe lembrar que foram eles que lhe ensinaram a andar e usar o garfo.
Aos mais velhos, que lançam severas críticas ao mundo virtual, em particular às redes sociais, vale considerar que, antes de falarem mal, devem procurar entender a tecnologia, dominar suas ferramentas, para que então digam, à luz do conhecimento, se aprovam ou não. Rejeitá-las sem esclarecimento, é uma rejeição sem qualidade.

O exemplo Sarah Palin

Candidata à vice-Presidência dos Estados Unidos na chapa John McCain (2008), a então governadora do Alasca, Sarah Palin, foi escolhida para trazer popularidade à campanha do Partido Republicano.
Mas junto com o carisma, veio também o desconhecimento, logo revelado nos primeiros pronunciamentos e entrevistas, que no final das contas zerou os benefícios.
Conforme mostra o filme ‘Game Change’, que encena algumas das passagens da campanha, a enorme ignorância de Palin, para quem disputava tão elevado cargo, foi sintetizada por um jornalista ao final de uma entrevista ao vivo da candidata. “Não é que ela não saiba a resposta; ela nem entende a pergunta”.
Não fosse pela falta de respeito à ex-governadora, o episódio bem que poderia virar uma cartilha alertando que não bastam os sorrisos.

A vida imita a arte

É interessante observar que até mesmo da ficção dos filmes é possível tirar algum ‘aprendizado’.No clássico “Scarface” (1983) vemos que ao contrário do que imaginava o personagem Tony Montana, o mundo não era seu.
Vivido por Al Pacino, Montana é um refugiado cubano que chega a Miami com a roupa do corpo e logo ingressa no submundo do crime. Ousado, não tarda para montar um mega esquema de venda de cocaína, fazer fortuna e construir um império com base no tráfico.

Destemido e implacável, desde o começo acreditava que sua coragem e determinação o levariam ao topo. Antes do auge, já havia adotado, como espécie de lema de vida, que “O mundo é seu” – algo como a demonstrar que tudo estava a seu alcance.
No apogeu de sua trajetória de crime, decorou a sala de sua mansão com uma escultura onde aparecia o globo envolto na frase “The world is yours”.
Desfecho – Mas Tony Montana e todo seu entorno desmoronaram antes mesmo que percebesse que o mundo não era seu. Porque, quer nas vielas escuras do crime, quer nos cenários iluminados pelas normas legais que a todos impõem direitos e deveres, o mundo nunca é seu; não é de ninguém.
Tira-se, portanto, a seguinte lição: o mundo não gira ao redor de ninguém, e ninguém é melhor que seu próximo, ainda que verdadeiros abismos sócio-econômico-culturais possam existir entre ambos.