Genocídio Cultural: o arco e flecha na mira da história de Campos

Reportagem discute o apagamento do índio Goytacá na história do município de Campos dos Goytacazes

Esta reportagem foi desenvolvida por alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário Fluminense (UNIFLU) em projeto desenvolvido na disciplina Redação Jornalística I, em 2019.1, ministrada pela professora doutora Jacqueline Deolindo Curvello. O texto é publicado no Jornal Terceira Via por meio de uma parceria entre o veículo e a coordenação do curso.

A historiadora e professora Sylvia Paes durante entrevista para a aluna Júlia Pinheiro, do curso de Jornalismo do UNIFLU, no Museu Histórico de Campos

Em 2018, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos e,  graças a ela, a dignidade de milhões de pessoas tem sido foco de políticas públicas em diversos países. Prevenir e repreender o crime de genocídio, por exemplo, está em um de seus tratados, mas quando se fala no assunto, geralmente se considera a destruição física, ignorando o fato de que o genocídio também pode ser o extermínio de uma civilização através da morte de sua cultura, o que é conhecido por etnocídio.

Não é preciso ir muito longe para entender como esse genocídio cultural funciona. Vivemos em uma cidade, Campos dos Goytacazes, que leva o nome de um grupo indígena, mas as informações que temos sobre esse povo são muito escassas. Segundo a historiadora Sylvia Paes, a colonização já começou matando a cultura indígena local a partir do momento em que os colonizadores não compreenderam linguisticamente os índios, que foram sendo expulsos e empurrados para o interior do Brasil.

No caso do índio Goytacá, Sylvia explica:

  • A nossa colonização vem muito dos jesuítas e dos padres beneditinos. Eles chegam no Rio de Janeiro e têm contato com um indígena que não é da cultura macrojê. A cultura lá é tupi guarani. Então, esses padres vêm pra cá e encontram esses indígenas que são diferentes, diferentes culturalmente, e eles, não compreendendo o que os índios falam, vão obrigá-los a falar tupi guarani. A prova disso é que se a gente for pensar nos topônimos do nosso espaço, Paraíba, Itaoca, Itaocara, tudo é tupi guarani. Não tem a marca da língua do índio Goytacá.

Professor Arthur Soffiati com um exemplar do seu livro “O Norte do Rio de Janeiro no século XVI” que foi lançado em 2019

Outro fato que mina a história do índio brasileiro é a versão colonialista que é contada só a partir de 1500, quando, na verdade, esses povos já habitavam o território há mais de 10 mil anos. Questionado se essa exclusão da história indígena se deve à falta de material de pesquisa, o historiador ambiental Arthur Soffiati responde:

  • Falta de material não é, porque apesar dos índios não terem a escrita, a expressão de uma cultura não se faz só pela escrita, se faz através de muitos outros objetos, e é a partir daí que a gente vai poder estudar a cultura imaterial desses povos.

Descobertas e desconhecimentos – Em Campos, foi descoberta no final dos anos 1980 uma área repleta desses vestígios, batizada de Sítio Arqueológico do Caju. Os pesquisadores desenterraram ossos, encontraram restos de alimentos, fossas de lixo orgânico, cerca de seis toneladas de cacos de cerâmica e 13 urnas de sepultamento. Todo esse material, que pode ser estudado, hoje se encontra no IAB (Instituto de Arqueologia Brasileiro), no Rio de Janeiro.

Mas como era o índio Goytacá? Uma evidência de que o conhecimento local é superficial a esse respeito é a famosa “estátua do índio”, escultura que ficava em uma das entradas da cidade, próximo ao Shopping Estrada. Na verdade, segundo Sylvia Paes, a imagem em nada se parecia com a figura original que habitou essas terras.

  • Aquele índio nunca teve nada a ver com o nosso indígena Goytacá. A paisagem também era disforme e não conversava com a história que foi registrada pelos viajantes.

O genocídio cultural distorce e reduz até apagar aos poucos toda a história de um povo, como se o passado não merecesse ser recuperado e não fosse necessário para a nossa formação. Para mudar isso, Sylvia Paes tem trabalhado com a colega Carmen Sampaio, também historiadora e professora, na escrita de livros infantis que falam da cultura local:

  • Não adianta falar de patrimônio cultural para adulto, porque ele já tem uma ideia formada. Nós precisamos contar essas histórias para as crianças, para que elas cresçam se apropriando dessa história e tendo esse patrimônio como delas.

Sérgio Risso, professor do IFF Campos e membro do NEABI (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas)

Educação e memória – De acordo com os entrevistados, há um caminho para se cumprir o que é proposto pela Organização das Nações Unidas: o da educação. Para o historiador e sociólogo Sérgio Risso, membro do NEABI (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros/Indígenas) do IFF Campos, é fundamental o envolvimento das instituições de ensino para que seja feito um trabalho de desconstrução dos estereótipos e, ao mesmo tempo, de construção de uma memória.

  • Espaços de pesquisa como o NEABI são importantes para que você produza as informações e elas cheguem até as escolas, cheguem até os livros didáticos e cheguem até a população.

O Museu Histórico de Campos possui hoje um pequeno acervo com material do Sítio Arqueológico do Caju e o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho está repleto de conteúdo a ser estudado, incluindo literatura de autores regionais. São espaços propagadores de cultura e informação, onde os visitantes podem, mesmo que tardiamente, ajudar a manter acesa a chama da nossa memória cultural.

 

Cocar na cabeça e vazio na memória: por que, para estudiosos, o Dia do Índio é comemorado de forma equivocada?

O Governo Vargas estabeleceu, em 1943, que o dia 19 de abril seria consagrado à homenagem aos nativos do país. O Dia do Índio é celebrado até hoje, em especial nas escolas de ensino fundamental, visando promover conhecimento e reconhecimento das diversas culturas indígenas que existem ou existiram no Brasil – ou assim era para ser.

Cocar na cabeça, pinturas no rosto e imagem de guerreiro que luta nos topos do planalto: essa é a imagem estereotipada com a qual muitas crianças acabam tendo contato em suas escolas, o que, segundo especialistas, contribui para a perda da identidade das inúmeras etnias indígenas que habitaram, e ainda habitam, o país.

O historiador Arthur Soffiati, estudioso da história ambiental do Norte e Noroeste Fluminense, é enfático ao afirmar que o Dia do Índio não deveria sequer existir.

  • Acho meio superficial. Acredito que deseduca mais do que educa. Qualquer roupa de índio tá bom, ninguém tá levando em consideração quais eram os traços culturais e físicos desses índios que habitavam Campos dos Goytacazes.

De acordo com Sylvia Paes, especialista em Geografia Humana, professores estão sendo orientados a mudarem suas abordagens.

  • Botar cocar, riscadinhos no rosto… Não é uma maneira correta (de ensinar). É uma forma de, cada vez mais, estereotipar os nossos indígenas.

 

As autoras campistas Sylvia Paes e Carmen Sampaio com o exemplar “Ururau Pançudo” da coleção “Tô Chegando” e o ilustrador Alício Gomes

“Tô Chegando”: projeto de duas professoras visa ensinar a história local para crianças

Com o intuito de propagar a cultura local de forma lúdica para as novas gerações, as professoras Sylvia Paes e Carmen Sampaio, ambas historiadoras, desenvolvem desde 2012 uma coleção de histórias para os pequenos. Segundo Sylvia Paes, é fundamental que as crianças vivenciem essas histórias desde cedo para que conheçam e valorizem o patrimônio cultural do lugar em que vivem.

Percebendo a dificuldade dos professores da região em encontrar material didático apropriado, elas criaram a coleção “Tô Chegando”: trata-se de livros infanto-juvenis, paradidáticos, com foco no patrimônio cultural local e regional. A intertextualidade ficou por conta dos personagens, que transitam pelas histórias uns dos outros. Um glossário com palavras características da região e propostas de atividades acompanham os livros para promoverem fixação e complementação do conhecimento.

O primeiro exemplar, “Ururau Pançudo”, foi lançado em 2014 e fala sobre a lenda do Ururau da Lapa. Dialogando com o leitor, o livro cita o sino, o famoso bicho de pança amarela, chuviscos e ainda conta a história de amor da moça bonita que queria fugir para se casar.

Livro “Indiozinho Cratscá” das autoras campistas Sylvia Paes e Carmen Sampaio

A coleção conta ainda com “Indiozinho Cratscá”, que dá informações sobre os indígenas goytacazes; “Rainha Ray’a”, que se passa no distrito de Murundu e tem como personagem uma formiguinha gulosa que fala dos tradicionais doces da culinária campista; “Chiquinha Faceira”, que conta a história de uma mulata chamada Francisca que adorava dançar a Mana-Chica; e o mais recente, “O Mistério do Jongo”, em que Vô Jerônimo, um preto-velho muito sabido, sonha com músicas e com o som dos tambores.

Enxergando na literatura uma forma de combate ao genocídio cultural, essa coletânea reúne memórias locais que contribuem para a educação patrimonial das novas gerações.

As escritoras fazem parte do grupo “Autoras e Autores Campistas”, que sempre participa de eventos culturais na cidade, onde é possível encontrar, para compra, os exemplares dos livros citados. Eles também estão à venda nas livrarias Noblesse e Ao Livro Verde, que ficam no Centro de Campos, e na Leitura, do Shopping Boulevard.

 

CONFIRA O PODCAST SOBRE O LIVRO “INDIOZINHO CRATSCÁ”:

 

CONFIRA O VÍDEO SOBRE O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DO CAJU:

EQUIPE
Pauta e Reportagem: Júlia Pinheiro, Laila Póvoa, Laura Lopes, Marina Bruno e Rafael Freitas.
Fotos: Laila Póvoa e Laura Lopes;
Podcast: Júlia Pinheiro, Laila Póvoa, Laura Lopes, Marina Bruno e Rafael Freitas.
Vídeo: Júlia Pinheiro, Laila Póvoa, Laura Lopes, Marina Bruno e Rafael Freitas.
Edição de vídeo: Rafael Freitas.

GALERIA DE FOTOS:

Professor Arthur Soffiati em entrevista para alunas Laila Póvoa e Marina Bruno

Peças do acervo do Museu Histórico de Campos

Peças do acervo do Museu Histórico de Campos

Peças do acervo do Museu Histórico de Campos

Interior do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho

Professor Arthur Soffiati durante entrevista

Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho

Aluna Laila Póvoa durante gravação com o professor Arthur Soffiati

O museólogo Carlos Roberto Freitas durante entrevista aos alunos do curso de Jornalismo do UNIFLU

O museólogo Carlos Roberto Freitas com o exemplar manuscrito do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho