Falas, gestos e confusão

Mesmo frágil, economia brasileira dá primeiros sinais de recuperação; ambiente político não ajuda e segue gerando forte turbulência

Artigo
Por Guilherme Belido
16 de setembro de 2019 - 16h50

(Foto: divulgação)

Nos últimos dias, os dois principais setores da vida brasileira produziram notícias animadoras e inquietantes.
As animadores vieram das boas novas de alguns índices econômicos, comemorados com entusiasmo face ao momento de vacas magras por que passa o Brasil.
As inquietantes, das falas imprudentes do filho do presidente da República, Carlos Bolsonaro, que acenderam sinais de alertas e geraram reações nos mais diferentes segmentos da sociedade.
É intrigante observar que a questão não é resultado de ação desastrosa do governo – que, aí sim, poderia causar abalo – mas de aspectos meramente comportamentais, os quais criam desconfiança.
Bem entendido, não que por serem ‘meramente comportamentais’ possam ser desprezados e não precisem de atenção. Mas porque, na prática, o governo – ou quem fala pelo governo, ou aparenta falar pelo governo – tropeça mais no que fala do que no que faz.
Dizendo de outro modo, o governo ‘se atrapalha’ a si mesmo e colhe as consequências.

O presidente Jair Bolsonaro venceu as eleições e governa o Brasil. Quem governa quer calmaria e paz. Afinal, está no comando. À oposição, ao contrário, interessa alvoroço, para balançar o galho de quem está acima, na ponta da árvore.
O curioso é que desde o início do mandato o próprio presidente parece querer semear vento como se não fosse colher tempestade. Ou – o que seria ainda mais estranho – não se importa com os temporais, ainda que saia molhado.
Ainda mais curioso é que, sendo capitão reformado, deveria evitar certos temas para não alimentar a desconfiança daqueles que lhe fazem oposição por temerem algum risco institucional.
Mas, ao contrário, Bolsonaro segue dando espaço a essa resistência com declarações que só servem para gerar instabilidade no próprio governo.
Num País traumatizado pela ditadura militar de 21 anos e que – a despeito das três décadas e meia de plena democracia – ainda se ressente daquele período negro da história, dizer que democracia e liberdade só existem quando as Forças Armadas querem, é de um contrassenso sem medida. Mas disse.
Como se não bastassem os elogios ao período de ditadura no Brasil, Bolsonaro também teceu elogios ao ditador Augusto Pinochet, o governante mais violento e criminoso da história do Chile.

Os ‘filhos presidenciais’
Na segunda feira passada (09), o vereador Carlos Bolsonaro postou mensagem no Twitter dizendo que “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos…”.
No mesmo dia, outro filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, visitou o pai no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, armado. Na foto que postou numa rede social, aparece ao lado da cama com uma pistola na cintura. Eduardo vai ser indicado para ocupar o cargo de embaixador em Washington.
A postagem de Carlos Bolsonaro provocou reação imediata em diferentes segmentos da sociedade, incluindo políticos, autoridades e instituições.
O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, disse preferir nem comentar o assunto. “É uma declaração que não cabe num país democrático, mas a gente viu o que aconteceu com a Venezuela…. É isso que deu a pressa da Venezuela sem um sistema democrático. (….) Eu acho que frases como essa devem colaborar muito com a insegurança dos empresários brasileiros e estrangeiros de investir no Brasil” – concluiu o deputado.
O senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado, falou que “as instituições estão pujantes, trabalhando em favor do Brasil. Então, uma manifestação ou outra em relação a esse enfraquecimento tem, da minha parte, o meu desprezo…”.
Perguntado sobre a importância da democracia ser mantida no País, o vice-presidente Hamilton Mourão esclareceu ser fundamental. “Democracia, capitalismo e sociedade civil forte são pilares da civilização ocidental”.
Sobre a declaração de Carlos, foi direto. “Carlos Bolsonaro vocês perguntem para ele. Problema é dele”
Em entrevista à CBN, o ex-governador e ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, condenou a postagem do vereador Carlos Bolsonaro. “Não precisamos saber a opinião desse boboca, mas precisamos que Bolsonaro diga claramente que foi uma bobagem. Ele deve defender o estado democrático”.
Bem mais enfático, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, afirmou que “Não há como aceitar uma família de ditadores”.

Pronunciamentos
A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em sua última sessão como representante do Ministério Público Federal, disse estar preocupada com a democracia. “Acho que o grande desafio do século 21 é não deixar que as democracias morram. Muitas vezes acontecem avanços e também retrocessos…”
Na mesma sessão, o decano da Corte, ministro Celso de Melo, mandou ‘recados velados’, enfatizando a independência do MP em relação a grupos ideológicos, partidos políticos ou quaisquer autoridades. Destacou, ainda, que “No Brasil e no mundo, surgem vozes contrárias ao regime de leis, ao respeito aos direitos fundamentais e ao meio ambiente sadio também para as futuras gerações”.
Explicação – No dia seguinte à postagem, Carlos explicou que sua fala quis dizer “por vias democráticas as coisas não mudam rapidamente”, acrescentando tratar-se de uma observação àqueles que “cobram mudanças urgentes”.
Disse, também, que jornalistas espalham que ele defende a ditadura. E os chamou de “Canalhas!”.

Economia reage apesar das falas inconvenientes
É natural que o meio político reaja à postagem de Carlos Bolsonaro, posto que ao falar em “via democrática”, da forma como colocado, deixou no ar se estaria se referindo à possibilidade de ‘outra via’ – o que absolutamente não se sustenta no Brasil de hoje, que vive o maior período democrático de toda a história.
Isso mesmo. Desde a Proclamação da República, o País não experimentou período de democracia tão longo como o atual – fato que muitas vezes passa despercebido.
Mas, quer em relação aos que se posicionam de forma cidadã, preventivamente afastando qualquer alternativa fora da democracia – e assim agem corretamente –, tanto quanto àqueles que se aproveitam do fato atípico para criar um cenário de instabilidade, cabe perguntar: até onde a postagem do vereador do Rio de Janeiro tem, de fato, alguma relevância?
De novo: não deve passar em branco. Mas seria o comentário infeliz uma semente contra a democracia? Seria isso tudo?
Desde o início do ano Carlos Bolsonaro vem criando caso com ministros, com o vice Mourão e outros. Posta o que lhe vem à cabeça e o Brasil não dá qualquer sinal de enfraquecimento democrático. Ao contrário, as instituições – com erros e acertos nos três poderes – seguem fortalecidas.
O próprio presidente Bolsonaro tem feito declarações infelizes e nem por isso o Brasil parou. A Lava Jato continua combatendo a corrupção, a reforma da Previdência está praticamente concluída e a Tributária intensifica as discussões.
No meio disso tudo, a economia dá sinais de recuperação – e isso é o que interessa. As vendas no varejo aumentaram 1% em relação a julho de 2018 – acima do que previa o mercado. O setor de serviços cresceu 0,8% no mesmo mês, recuperando-se da queda de 0,7% do mês anterior.
Apesar da seca, a previsão é de safra recorde para o setor agropecuário, com influência direta no PIB. Em julho e agosto a arrecadação foi acima do esperado. A inflação segue em queda e o juro baixo, ainda que por motivos nocivos, favorece o crédito.
Enfim, ainda não se pode falar em retomada do crescimento porque o pêndulo da recessão foi muito para um lado e o retorno está lento. Mas, de todo jeito, essa mesma recessão está no retrovisor, não no para-brisa.
Assim, mesmo com os posts de Carlos Bolsonaro e as cenas populistas do presidente, tais como levar Silvio Santos e Edir Macedo para a tribuna presidencial nos desfiles de 7 de Setembro, o Brasil vai caminhando e sobrevivendo a falas e gestos exóticos.