Uma rede para prevenção ao suicídio

No Brasil, uma pessoa tira a própria vida a cada 45 minutos; no mundo uma a cada 40 segundos

Campos
Por Priscilla Alves
1 de setembro de 2019 - 0h01
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Se você tem pensamentos suicidas, ligue a qualquer hora para o Centro de Valorização da Vida (CVV) por meio do número 188. As ligações são gratuitas para todo o país.

 

“Ele era muito tranquilo, muito amoroso. Venceu o câncer duas vezes nos últimos anos e era um exemplo para todos. Sempre falava que queria lutar pela vida e não iria nos deixar. Éramos casados há 22 anos e temos duas gêmeas de 19. Além disso, somos muito religiosos. Não faltou Deus, não faltou amor, nem atenção”. A declaração emocionada é da viúva Rosiane Macabu, que perdeu o marido há três meses após ele cometer suicídio dentro de casa em um dia aparentemente normal. Alexandre Augusto agora faz parte de uma assustadora estatística sobre suicídio: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa se mata em todo mundo. A cada 45 minutos, uma pessoa se mata no Brasil. Além disso, a cada suicídio, outras 20 pessoas tentam tirar a própria vida. Em Campos, os números de tentativas de suicídio também assustam e aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Em 2017 foram 38 tentativas, enquanto no primeiro semestre de 2018 foram contabilizados 79. De janeiro a 28 de agosto deste ano, o número está em 109. Os dados são do Hospital Ferreira Machado, que costuma atender estas vítimas.

O suicídio geralmente ocorre no momento em que o ser humano passa, talvez, pela pior das dores e não consegue mais lidar com o sofrimento. O ato de tirar a própria vida nem sempre tem uma explicação para quem está ao redor destas pessoas, mas depressão, tentativa anterior de suicídio, dificuldade de lidar com estresses como problemas financeiros, de relacionamentos e de saúde estão entre os fatores de risco. Além disso, segundo a psiquiatra e professora Gabriela Dal Molin, geralmente estas pessoas são mais impulsivas.

“Eu sempre falo das alterações do comportamento. Essa pessoa começa a ficar mais isolada e a não se comunicar. Isso pode acontecer com qualquer pessoa, mas é mais comum quando ocorre um episódio depressivo grave. A população vem adoecendo muito, prova disso são os transtornos de ansiedade. Às vezes, pacientes que jamais imaginaram cometer suicídio se vêem em alguma situação difícil e chegam ao extremo. Além disso, há os clássicos pacientes que já têm uma prevalência maior ao suicídio, que são os que têm esquizofrenia, transtorno de humor bipolar, depressão grave e transtorno de personalidade borderline”, explicou.

Segundo a viúva de Alexandre Augusto, os problemas psicológicos dele começaram após uma síndrome do pânico, que desencadeou uma depressão.

“Ninguém imaginava que ele tinha depressão. Ele era muito comunicativo e alegre. Venceu o câncer, mas não conseguiu lutar contra a depressão. Ele já havia tentado se matar uma vez e nossas filhas e eu sempre ficávamos atentas. Ele foi ficando mais calado, mas sempre dizia que estava tudo bem. Até que um dia ele me deixou no trabalho por volta das 13h, como sempre fazia. De tarde, nos falamos no telefone, os vizinhos conversaram com ele na frente da casa e quando eu liguei de novo para me buscar, umas 18h, ele não atendeu. Naquele momento eu senti que havia acontecido o pior. Pedi para um familiar ir até minha casa e então ele viu a cena”, relembrou.

Para a psiquiatra Gabriela, é importante que as pessoas tenham acesso a tratamentos com especialistas e que falem sobre a dor. “Antes achava-se que falar sobre suicídio com o paciente poderia aumentar os casos e é importante ficar claro que não. Quando a gente pergunta ao paciente se ele tem algum plano, na maior parte das vezes ele se sente acolhido e consegue trazer para a consulta aquele sofrimento e a gente consegue fazer a prevenção”, explicou.

Três meses após a morte do marido, Rosiane tenta se reerguer. “Eu entendo que apesar da dor, é importante falar sobre isso. A gente que fica, se cobra muito e é algo que não temos resposta. Eu busco essa resposta todos os dias, mas infelizmente não tenho”, lamentou.

 

BUSCAR AJUDA

As tendências suicidas são perceptíveis em algumas situações e independente do porquê, há profissionais e locais especializados em Campos para atender estes casos gratuitamente. Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são exemplo. Além disso, também existem os ambulatórios de saúde mental na UBS Alair Ferreira, no Jardim Carioca, e na UBS do Parque Imperial. Estes locais atendem os usuários com depressão e histórico de tentativa de suicídio ou ideação suicida. Há todo um acompanhamento para esta demanda.

Segundo a Prefeitura de Campos, estes serviços contam com equipe multiprofissional composta por médico psiquiatra, psicólogo e assistente social. Também são ofertados atendimentos individuais e em grupo e oficinas terapêuticas. As pessoas são acolhidas e acompanhadas de acordo com a indicação. Também há trabalho de prevenção em relação aos jovens. O Programa Saúde na Escola (PSE) desenvolve o projeto Valorização da Vida: Prevenção ao Suicídio em escolas do município alertando os jovens para os cuidados que devem ser tomados.

Para a viúva Rosiane Macabu, o apoio de quem está ao redor é muito importante. “A gente não pode deixar as vidas das pessoas que a gente ama serem perdidas assim como água, como se a gente tentasse segurar e eles escorressem pelas nossas mãos. Meu conselho é dar mais atenção, olhar nos olhos, não cobrar, não dizer jamais que é falta de Deus, porque não é verdade. É uma tristeza muito grande que só a pessoa mesmo pra saber. É uma doença muito séria e a gente precisa fazer alguma coisa. Pudesse eu ter mais um segundinho na frente do meu marido”, desabafou.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma associação filantrópica, reconhecida como utilidade pública, que disponibiliza apoio emocional e prevenção do suicídio de forma voluntária e gratuita a quem precisa e quer conversar. Tudo isso de forma sigilosa e por telefone, e-mail ou chat, disponíveis durante 24h e todos os dias da semana. O número para quem quer buscar ajuda é o 188. Quem preferir apoio por chat, o endereço é o https://www.cvv.org.br/chat/ e por email pelo link https://www.cvv.org.br/e-mail/. Segundo o CVV, nestes canais, são realizados mais de 2 milhões de atendimentos anuais, por aproximadamente 2.400 voluntários, localizados em 19 estados mais o Distrito Federal.

 

A IMPRENSA E AS REDES SOCIAIS

Quando algum familiar ou amigo comete suicídio, é um momento de extrema dor para os que vivem o luto. Não é à toa que a imprensa oficial não noticia estes casos (que, segundo estudos, não são de interesse público e ainda podem encorajar pessoas com tendências suicidas a cometer o mesmo) e muito menos expõe fotos ou vídeos do tipo. Mas recentemente, alguns casos ganharam notoriedade em Campos através das redes sociais e até de alguns veículos de comunicação. A Associação de Imprensa Campista (AIC) emitiu uma nota direcionada aos jornalistas da cidade e às empresas de comunicação reafirmando orientações sobre como a imprensa deve lidar com estes casos.

“Eu costumo analisar de duas formas: a falta de limite de quem posta, porque há essa liberdade de postar o que quer, e a aceitação deste material por parte de quem recebe ou procura. A própria população tem sua parcela de culpa, porque alimenta esse tipo de notícia irresponsável e dá ibope para isso. Então, precisamos chamar atenção de quem divulga e alertar a própria população a não consumir esses assuntos”, afirmou Wellington Cordeiro, Presidente da AIC.

Para Rosiane Macabu, a dor de ter perdido o marido ficou ainda mais forte quando ficou sabendo que várias fotos do corpo dele estavam sendo compartilhadas em grupos de Whatsapp. “Eu pedi que não tirassem foto, mas fizeram e a imagem dele morto foi espalhada em vários grupos de Whatsapp, que infelizmente divulgam isso. É uma falta de respeito com a gente. Só quem está passando por isso sabe a dor que sente. Nossas filhas têm 19 anos e isso foi muito sofrido pra gente. Não deveriam divulgar esse tipo de imagem jamais. É uma falta de amor ao próximo”, desabafou emocionada.

Divulgar ou não um ato de suicídio é uma questão amplamente discutida. “Isso tem que ser levado muito a sério e com responsabilidade. O ideal é não publicar, mas em caso de publicação, que seja de maneira responsável com informações pertinentes para evitar o ato de desespero e disponibilizar números do governo que dão orientação sobre onde buscar ajuda. Infelizmente, alguns ‘órgãos de imprensa’ que existem na rede social e algumas pessoas se colocam como jornalistas, mas não têm conhecimento da ética jornalista. É um assunto muito sério e temos que ficar em alerta”, destacou o presidente da AIC.

A Organização Mundial da Saúde lançou no ano de 2000, o trabalho “Prevenção ao Suicídio: um manual para profissionais da mídia que destaca quais informações funcionam como gatilho e que devem ser evitadas a qualquer custo. Desde aquele ano, este material orienta, por exemplo, que a mídia não divulgue fotos e detalhes relacionados ao suicídio justamente para não incentivar novos casos.

 

SETEMBRO AMARELO

A campanha de conscientização Setembro Amarelo tem como foco a prevenção do suicídio e foi criada pelo CVV em 2015. É também em setembro, no dia 10, que foi instituído o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Em Campos, nos dias 03 e 10 de setembro, entre 13h e 17h, o Programa de Saúde Mental participará do ciclo de palestras, realizado na Unidade Pré-Hospitalar (UPH) São José, com a enfermeira Maria da Penha Ferreira Furtado. O objetivo é ampliar a qualificação da rede para o atendimento a este público. Já no Oncobeda, a palestra “Precisamos Falar Sobre Isso” será no dia 18, a partir das 10h, com a psiquiatra Gabriela Dal Molin. O evento acontecerá na recepção da unidade. Outras ações de prevenção também serão desenvolvidas durante este mês.

Além disso, a Lei nº 8.808, do vereador Cláudio Andrade (DC), dispõe sobre a Política de Valorização à Vida e cria a Semana de Prevenção ao Suicídio. “A lei visa alertar para a necessidade do apoio multidisciplinar e espiritual às pessoas em crise existencial. É preciso falar desse assunto e de alguma forma tentar entender o que leva uma pessoa a tal circunstância. No próximo dia 10, Dia Mundial de Combate ao Suicídio, vamos receber na Câmara de Vereadores a psicóloga Denise Godim e no dia 27 vamos, também, durante o “Gabinete na Praça”, com ajuda da psicóloga Adriana Silveira, orientar a população no calçadão do Centro de Campos”, afirmou Cláudio Andrade.