A metáfora de Schopenhauer

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. aborda o tema da solidão

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Por Paulo Cassiano Júnior
1 de setembro de 2019 - 12h11

Em sua obra “Parerga e Paralipomena II”, publicada em 1851, Arthur Schopenhauer apresentou a seguinte parábola: num dia de inverno, um grupo de porcos-espinhos aglomerou-se para não morrer de frio. Quando chegaram próximos o suficiente para se esquentarem, porém, começaram a se ferir com os espinhos. Para cessar a dor, afastaram-se, e logo o incômodo da baixa temperatura os impeliu a buscar novamente o aquecimento coletivo. O ciclo seguiu até que eles encontraram uma distância moderada, um meio-termo confortável e seguro.

A metáfora do filósofo alemão ilustra bem o impasse da convivência humana: para superar o vazio e a melancolia, aproximamo-nos reciprocamente, mas nos distanciamos tão logo nos sentimos perturbados com os defeitos e as atitudes dos outros.

O ser humano é gregário, criado para viver em sociedade. No relato do Gênesis, Deus formou a mulher e disse que não era bom que o homem vivesse só. Aristóteles chamou o homem de “animal político”, pois o observou carente e imperfeito, em busca da comunidade (“polis”) para alcançar a completude. Todos temos a necessidade de criar vínculos afetivos e efetivos. A solidão é tão cruel que, não por acaso, o pior castigo de uma prisão se chama solitária.

O avanço e a difusão da tecnologia pareciam solucionar o dilema de Schopenhauer. As mídias sociais aproximaram as pessoas e aprimoraram a comunicação entre elas. Apesar de não trazer a dor dos espinhos, o modelo das relações digitais atenuou a alteridade e reforçou o egocentrismo. Ao mais tênue sinal de divergência, elimina-se o outro do convívio virtual com um simples toque, e a interação prossegue apenas com o igual. Vivemos em permanente conexão, porém isolados. O celular é a desculpa perfeita para evitar relacionamentos reais. Na era da internet, conhecer alguém a fundo se converteu numa experiência trabalhosa, pesada e dispensável.

A solidão extrapolou os consultórios psicológicos e tornou-se problema de Estado. Prova disso é que, no ano passado, em atenção aos aproximadamente 14% da população britânica, os quais declaram viver frequente ou permanentemente sozinhos, pela primeira vez na história, o Reino Unido criou o Ministério da Solidão. Nas palavras da primeira-ministra Theresa May, o objetivo da medida é enfrentar “a triste realidade da vida moderna”.

A experiência de estar só nessa “triste realidade da vida moderna” deve ser aproveitada como oportunidade para reflexão e crescimento pessoal. O silêncio é um convite para visitar o nosso mundo interior e escutar a nossa própria voz. Muitas pessoas fogem desesperadamente da solidão porque não possuem maturidade emocional para lidar com elas mesmas de maneira criativa e inteligente. Buscam relacionamentos sem critérios cujo principal propósito é o de livrá-las da agonia de estarem desacompanhadas e, assim, acumulam derrotas e frustrações. Cedo ou tarde, quem toma outras pessoas como muletas para o seu vazio acaba descobrindo que nenhuma solidão é mais atroz do que a que se sente ao lado de alguém.