Centro de Inovação deve ser instalado no Palácio da Cultura e medida é criticada pela sociedade civil organizada

Terceira Via conseguiu, com exclusividade, imagens do projeto arquitetônico do novo Palácio, já incluindo as salas do polo de empreendedorismo

Campos
Por Ulli Marques
12 de julho de 2019 - 16h09

Após o Terceira Via publicar a reportagem intitulada “Palácio da Cultura ou da Inovação?“, em que comunica à população, em primeira mão, a estratégia da Prefeitura de Campos de abrigar o Centro Municipal de Inovação no interior do Palácio, o Conselho de Cultura se reuniu e, após votação, decidiu repudiar o projeto e a atitude do Governo de não comunicar ou pedir sugestões aos integrantes antes de propor tal medida para ocupação do prédio histórico. A Prefeitura, por sua vez, garantiu que tal projeto foi criado com a intenção de agregar às manifestações artísticas da cidade e cedeu, com exclusividade, a nova planta baixa do Palácio da Cultura com detalhes sobre como este deverá ser utilizado após o final das obras.

O Conselho Municipal de Cultura é formado por 24 membros sendo 12 do Governo e 12 da sociedade civil organizada. Nesta última reunião, parte dos integrantes do governo não estavam presentes e, dentre todos os que estavam, 10 foram contra a medida tomada pela Prefeitura de Campos e pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL) e 4 se abstiveram da votação final. Assim, a maioria decidiu que encaminhará um ofício à Prefeitura de Campos solicitando que o projeto de implantação do Centro Municipal de Inovação seja revisto, desta vez com participação da sociedade civil. Outra reunião deve acontecer neste sábado (13), quando o Conselho deverá elaborar essa contraproposta.

No mais, a justificativa para tal repúdio é, segundo o conselheiro titular da Câmara de Artes Visuais, Cássio Peixoto, a necessidade de se manter, em Campos, uma área destinada unicamente à cultura. “Nós não temos aparelhos culturais suficientes para suprir a demanda que nós temos de cultura e de arte no município. O Palácio é o único espaço que absorve todas essas manifestações que aqui ocorrem. É um absurdo macularmos esse local com assuntos que nada têm em comum com o seu propósito, como o empreendedorismo, por exemplo. Não que esse viés deva ser desprivilegiado, mas não precisa funcionar no nosso único reduto cultural. Esse projeto de inovação não serve para os artistas de Campos”, declarou.

Vale frisar que a presidente do Conselho Municipal de Cultura é também a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, e ela foi uma das integrantes que se abstiveram de votar nessa última reunião. A equipe de reportagem do Jornal Terceira Via entrou em contato com ela por telefone, mas não obteve retorno.

Palácio da Cultura + Centro Municipal de Inovação

Espaço Coworking do novo Palácio da Cultura (Foto: Divulgação)

A polêmica envolvendo esse prédio histórico está vinculada à possível descaracterização da proposta inicial do Palácio que, em tese, deveria ser um local voltado para a disseminação e valorização das expressões artísticas e culturais de Campos. No entanto, o superintendente de Ciência, Tecnologia e Inovação, Romeu e Silva Neto, garante que descaracterizar o prédio não é a intenção do Governo Municipal. Ao contrário: segundo ele, o objetivo é contribuir para que a arte e a cultura tenham bases sólidas.

“Pensamos que a cultura e o empreendedorismo são indissociáveis, uma vez que, quando promove um espetáculo, o produtor cultural precisa captar recursos, por exemplo. A ideia é que a arte e as possibilidades de disseminação desta sejam potencializadas por meio do Centro Municipal de Inovação. Isso porque a inovação não é apenas tecnológica. Ela pode acontecer na música, na dança e nas artes cênicas. Inovar é projetar”, afirmou Romeu.

Espaço de exposições artísticas do novo Palácio da Cultura (Foto: Divulgação)

Ele disse ainda que, por meio dos setores que serão abarcados no Centro Municipal de Inovação, pretende-se incubar projetos sociais e culturais, contribuindo para a geração de empregos principalmente na área da cultura. “Queremos valorizar a efervescência criativa do povo campista. E isso acontecerá por meio do Palácio da Cultura, que é de todos, e, efetivamente, de sua reativação, que é uma política pública que deve ser debatida”, disse.

Quanto às críticas do Conselho Municipal de Inovação, Romeu declarou que a Prefeitura de Campos está aberta ao diálogo e analisará às contrapropostas apresentadas.

Sala de reuniões do novo Palácio da Cultura (Foto: Divulgação)

Caso o projeto seja, de fato, implantado, o Palácio da Cultura deve abrigar, além da Biblioteca Nilo Peçanha, com acervo físico e digital, também a sede da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, da Superintendência de Inovação, Ciência e Tecnologia, do Fundo Municipal de Desenvolvimento de Campos (FUNDECAM), da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (JUCERJA) e da TECCampos. No local ainda haverá um espaço coworking aberto à população; um café; salas de reuniões, consultorias e treinamentos; sala multiuso; espaço de exposições artísticas; brinquedoteca; jardim interno; auditório; e palco externo. Dentro do espaço também deverá ser disponibilizada internet em alta velocidade.

A obra de reestruturação do Palácio da Cultura, orçada em R$ 1,2 milhão é financiada por uma empresa como medida compensatória homologada pelo Juízo da 4ª Vara Cível de Campos em razão da demolição de um prédio histórico da Rua 13 de Maio, onde funcionou o Casarão do Clube do Chacrinha, entre o final de 2012 e início de 2013, sem a devida autorização de órgãos competentes. Já a compra de toda a mobília que deverá ser utilizada nesse espaço será proveniente de uma emenda parlamentar do ex-deputado federal Paulo Feijó no valor de R$ 1 milhão. Assim, o novo Palácio da Cultura e o Centro Municipal de Inovação não devem gerar ônus para a Prefeitura de Campos.

O mesmo vale para o projeto arquitetônico  do novo Palácio da Cultura que foi feito sem custos para a Prefeitura, desenvolvido, por meio do Programa Viva a Ciência, pelo estudante Thalles Otal e pelo Professor Arquiteto Ronaldo Araújo do ISECENSA.