Nossa história bem arquivada

Instalado no Solar do Colégio, prédio mais antigo de Campos, o arquivo está entre os maiores do Brasil

Campos
Por Redação
9 de junho de 2019 - 13h36

Ela é de Niterói e veio para Campos por concurso. Com cursos na Uerj, Uniflu e Uenf. Todos já ouviram falar nas expressões “arquivo confidencial”, ” queima de arquivo” e ” arquivo morto”. Na condição de historiadora do Arquivo Público Municipal, em Tócos, Rafaela está um pouco a frente do seu tempo, posição que muitos precisam para observar o passado. Hoje, o Arquivo que abriga um acervo inacreditável, funciona no prédio mais antigo de Campos, o Solar do Colégio. Ele é considerado o quarto no país em se tratando de desempenho. Não é apenas um arquivo para acondicionar o passado, mas também um centro de pesquisas. Nele funciona inclusive um laboratório de restauração. Nesta entrevista, Rafaela fala, por exemplo, sobre a polêmica questão do índio da Estrada do Contorno, assunto já enterrado

O Arquivo Municipal de Campos está entre os quatro – cinco municipais – mais bem estruturados do país, e parece que neste contexto pesa também o seu conteúdo. Como você avalia essa posição?
O reconhecimento da importância do Arquivo é, na verdade, o reconhecimento do trabalho de um equipe que se empenha de forma coesa ao longo desses 18 anos. Temos um dos acervos mais rico do país, com documentos que fazem referência a boa parte do interior do Estado e que remontam a primeira metade do século XVI. Acredito que muito da nossa riqueza esteja aí, na nossa documentação. Além disso, temos um trabalho muito importante nas áreas de restauração – já que somos os únicos no interior do Rio a contar com laboratório de restauração -, em paleografia com três profissionais reconhecidos na área e, nos últimos anos, um intenso trabalho de pesquisa voltado à história regional.

Além de abrigar esse imenso acervo, o Arquivo também tem um laboratório de restauração de documentos. Como é feito esse trabalho?
O trabalho de restauração é um trabalho extremamente minucioso e demorado e que sempre impressiona seja pela qualidade do que é apresentado, seja pelo resultado em si, uma vez que conseguimos recuperar documentos aparentemente impossíveis de serem tratados. Todo trabalho requer uma organização muito minuciosa de tempo e etapas de trabalho. Para realizarmos o banho em certo documento, temos que testar se a tinta é solúvel ou não, se o papel em questão suporta o procedimento e, caso não suporte, todo o processo que seria feito mecanicamente passa a ser feito manualmente, o que exige ainda mais tempo e cuidado. Tudo é muito minucioso e impressiona sempre que é visto pelo público e pelos pesquisadores.

O Arquivo ao contrário do que muitos possam pensar não é apenas um depósito de documentos. Existe pesquisas nela, pesquisas da história regional. Comente isso?
Temos nos dedicado a desenvolver pesquisas voltadas a analisar aspectos da nossa história, principalmente a partir do trabalho com novas fontes e novas perspectivas e abordagens. Temos em mente o reconhecimento da importância de todos os pesquisadores que nos séculos passados se dedicaram a estudar a nossa história, os chamados memorialistas, mas precisamos ir além. Temos fontes para isso, pessoal qualificado, novos métodos de estudos e, portanto, podemos e devemos dar ao público novas perspectivas. Nos últimos anos lançamos livros, realizamos capacitações de professores, cursos, produzimos exposições e, mais recentemente, um documentário sobre a imigração sírio-libanesa. É importante mencionar que valorizamos demais o trabalho dos grandes nomes da história campista, tanto é que relançamos A Terra Goytacá, volume I, Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reys (1785), Augusto de Carvalho, entre outros.

Nos últimos anos o Arquivo Municipal recebeu a visita de pesquisadores ilustres, alguns que cruzaram o oceano, como um francês e uma canadense. Pouca gente sabe disso. É fato?
Sim, é fato. Isso representa para o Arquivo algo extremamente importante, pois temos aí a resposta de que nosso trabalho e nosso acervo estão sendo de fato conhecidos e reconhecidos. No entanto, sempre digo que é preciso que nós mesmos nos apropriemos dessa nossa história e da nossa documentação. Não digo que outros não o possam fazer. Não é isso. Mas nós deveríamos estar fazendo isso há tempos, ou pelo menos, deveríamos dar preferência a isso. Hoje Campos desperta o interesse de pesquisadores de renome no cenário nacional e que estão desenvolvendo grandes pesquisas sobre a nossa história, mas nós também temos gente interessada e qualificada que pode e deveria estar realizando pesquisas tão boas e de alto nível.

Falando em pesquisa vocês tem um raro documento que indica a criação da primeira Câmara de Vereadores da Vila de São Salvador datado de 1653. Como esse documento foi encontrado?
Esse documento faz parte de um Livro de Notas que data de 1649, ou seja, sequer éramos ainda Vila ou sequer havíamos sido elevados à categoria de cidade. Esse livro foi devolvido à municipalidade depois de ficar muitos anos fora de Campos. Fizemos a restauração dele, pois as condições físicas eram, obviamente, muito precárias e em meio a esse grande documento, encontramos o termo que celebra a eleição para a criação da primeira Câmara Municipal, ainda em finais de 1652 e que tomou posse em 01 de janeiro de 1653, portanto, antes mesmo que o donatário Visconde de Asseca oficializasse a criação da Vila em 1677.

Sei que não é bem sua função, mas esse documento poderia ajudar a resolver definitivamente essa polêmica sobre a idade de Campos, ou você não concorda com isso?
Não só concordo, como temos tentado demonstrar o equívoco de comemorar a criação da municipalidade em data tão recente, isto é, 1835 – quando a Vila foi elevada à categoria de cidade, quando na verdade oficialmente já éramos vila desde 29 de maio de 1677. Brigamos para parecer mais novos quando todas as cidades no Brasil brigam pelo título de mais velha, ou mais velhas. Em verdade, sugerimos o ano de 1653 desde que conseguimos encontrar o documento que mencionei acima. Já tínhamos notícia que em 1652 os próprios moradores haviam realizado a eleição da Câmara – um dos atos formais para a criação de uma Vila, esta mesma que tomou posse em 1653. Oficialmente, é esse documento que consideramos e é com essa data que sugerimos qualquer comemoração. Assim, teríamos agora 366 anos. Quanto a questão de comemorarmos em data mais antiga, quando ainda éramos freguesia, acredito que ainda precisamos avançar mais nas pesquisas e encontrar mais subsídios na documentação.

Para enriquecer o acervo do Arquivo Municipal você tem como meta conseguir mais documentos sobre Pero e Gil de Góes (ou Góis). Isso implicaria em uma incursão a Portugal. Em médio prazo isso pode acontecer?
Previ uma viagem a Portugal para realizar pesquisas para o Arquivo, consequentemente para Campos, e para as minhas próprias pesquisas de Doutorado, já que estudo a região no período colonial, para algo em torno de um ou dois anos. Gostaria muito de concretizar isso, mas acredito que essa seja uma pesquisa muito profunda e que talvez só consigamos desenvolver a longo prazo. Hoje estamos empenhados no resgate da influência de diferentes colônias de imigrantes que ajudaram a conformar a identidade singular de Campos. Nesse momento, nosso foco tem sido os sírios e, em especial, os libaneses.

Existem muitos documentos sobre a história de Campos e da região em Portugal?
Muitos. Como também nos arquivos das ordens religiosas, como jesuítas e beneditinos. Ainda temos muito o que pesquisar e saber. Com a disponibilização de documentos em formato digital, tenho encontrado documentos referentes a Campos em arquivos nos Estados Unidos, Inglaterra e de países africanos. Nossas relações comerciais – lícitas ou não – eram muito amplas, e a escravidão talvez seja a maior dela, já que fomos um grande polo concentrador de mão de obra escrava. Só a fazenda dos jesuítas, depois comprada por um comerciante português – na verdade, traficante de escravos, tinha cerca de 2 mil escravos e mais de 3 mil cabeças de gado.

O Arquivo Municipal de Campos tem alcançado um número expressivo de visitantes. Bateu no curso do ano passado a média de três mil visitantes. É um bom número?
Tem sido os maiores números desde a criação em 2001, e acredito que isso seja resultado dos projetos que temos realizado, como cursos, oficinas e palestras. Realizamos em parceria com a Secretaria de Educação o projeto o Arquivo vai à Escola em que realizávamos exposições e palestras sobre educação patrimonial para os alunos da rede pública municipal. Recebemos diariamente visitas de escolas e nosso pessoal é sempre treinado para realizar um tour pelo Solar contando sempre sobre a história de Campos e sobre o que realizamos no próprio Arquivo. É muito interessante poder apresentar para os alunos documentos e jornais de época. Acreditamos que esse trabalho a longo prazo ajude a formar a consciência de cidadãos mais conectados com o seu passado e com a sua própria identidade cultural. Mas, respondendo a sua pergunta, ainda acho o número pequeno.

O fato de o Arquivo estar no prédio mais antigo de Campos, o Solar de Colégio, criado pelos Jesuítas, estabelece um casamento perfeito entre forma e conteúdo?
Sempre digo que não vejo um sem o outro. Quando o Arquivo foi instalado naquele lugar, enfrentou duras críticas. Até hoje enfrentamos, na verdade. Recorrentemente ouvimos que o Arquivo “é longe”, como se todos os instrumentos de cultura tivessem que estar na área central ou como se a Baixada não merece ter seus próprios equipamentos culturais. Acredito que o Solar engrandece o Arquivo e o trabalho do Arquivo valoriza o Solar. A imponência do Solar, com suas largas paredes de cerca de 0,80 cm, resistindo de 1652 a períodos áureos, a abandono, depredação e depois a um novo uso o tornam, embora eu seja a pessoa mais suspeita para dizer isso, o edifício mais lindo de Campos.

Pela distância talvez, muitos campistas não conhecem o arquivo, e por consequência o Solar onde está por exemplo os restos mortais de Benta Pereira. SE pensa em algum projeto de visitação programadas e assistidas?
Nossas visitações são diárias, sempre de segunda a sexta, atendemos tanto a grupos menores, colégios, visitas individuais ou grupos maiores, sempre com monitores treinados e que contam sobre o Solar, Campos e sobre o Arquivo. Todo agendamento pode ser feito por e-mail. Acredito que precisamos divulgar o Arquivo, divulgar nossas visitas, facilitar o acesso e permitir que um número maior de pessoas conheçam a riqueza que existe em Campos. Sem contar que sempre temos exposições para o nosso público. Neste ano contamos, até o momento, com duas exposições permanentes e uma nova intitulada “Memórias da Imigração”.

Para terminar, além de Benta Pereira, aquele arremedo de índio goitacá, que foi tirado pela estrada do Contorno está sepultando também no Solar. Obviamente que são valores distintos. Mas fala ai como aquela alegoria indigna incomodou o solar?
A grande maioria da população não sabe e, por isso a sua pergunta é tão importante, mas aquela “escultura” era na verdade uma alegoria recoberta por uma finíssima camada de fibra de vidro e camadas de espuma em seu interior. Quando foi colocada nos fundos do Arquivo, apresentava vários sinais de tiro e rachaduras em diversos pontos, tanto é que quando foi colocado imediatamente rachou ao meio. Nosso diretor  Carlos Freitas que é museólogo com vasta experiência em restauração, realizou laudo técnico acerca das condições daquela alegoria sinalizando para o perigo que ele representava, inclusive para o Arquivo naquele momento. O que me entristece profundamente é ver que as pessoas parecem dar mais valor a uma alegoria que elas sequer sabem  o que é feita, do que ao prédio mais antigo da cidade ou ao local que cuida da documentação histórica do município. Sou defensora da proposta para que façamos um monumento ao índio, acho que devemos isso a nossa história, mas devemos construir um monumento ou memorial que seja digno de tal.