Cineclubismo: arte e debate em cena

Em Campos, movimento cultural resiste e desperta interesses em vários gêneros do cinema

Cultura
Por Ocinei Trindade
6 de junho de 2019 - 15h55

Cineclube Goitacá é um dos mais atuantes em Campos (Foto: divulgação)

Um grupo se reúne para ver filmes e para discuti-lo em seguida. Este é o conceito de um cineclube, movimento que surgiu na França, no início do século passado. Por volta de 1925, até um estatuto do cineclubismo foi criado. O movimento se espalhou pelo mundo e ainda vigora, apesar do streaming, da televisão e do circuito comercial de cinema. Geralmente, obras raras são exibidas nesses encontros. Em Campos, algumas pessoas interessadas em cinema e em questões sociais ajudam a manter o cineclubismo em atividade.

O Cineclube Goitacá é um dos mais atuantes na cidade. Surgiu há pouco mais de uma década no Palácio da Cultura. Ultimamente, é realizado em um mini-auditório do edifício Medical Center, todas as quartas-feiras. O público costuma ser fiel e assíduo para contemplar obras da sétima arte e debatê-las ao final da exibição. Desde 2013, o advogado e cinéfilo Gustavo Oviedo passou a integrar o cineclube, auxiliando na organização das projeções. Ele conta que, originalmente, havia um ciclo de exibições temas especificos. Nos últimos tempos, cada um dos cineclubistas apresenta um filme de sua preferência.

“A ideia é que cada apresentador aborde um diretor ou obra para debatermos em seguida. Faz-se uma espécie de defesa da obra e alguns destaques cinematográficos. Somos um grupo reduzido, mas bem-sucedido. Temos entre 15 a 20 espectadores a cada sessão. Participei de outros circuitos na cidade, e vejo o Goitacá com uma ótima freqüência. Há muita liberdade de expressão nas opiniões”, conta.

Wellington Cordeiro também participa de inciativas na AIC e Faculdade de Medicina

Para Gustavo Oviedo, apesar da enorme oferta do audiovisual atualmente, há pessoas que se interessam por filmes raros. “O cineclube ajuda a divulgar um tipo de filme que não é comum em outros ambientes. Temos cinema mudo, clássico, europeu, asiático, latino-americano. O cineclube preenche essa lacuna. Eu gosto de mostrar a linguagem e a gramática do cinema. As escolhas de cenas, da música, da edição do diretor me interessam apresentar”, explica.

Para o professor de História e pesquisador de Cultura Popular, Marcelo Sampaio, um dos grandes problemas do Brasil é a falta de zelo com a preservação da nossa memória em todas as áreas e todos os níveis. “Para mim, trata-se de um compromisso histórico-artístico-cultural participar do Cineclube Goitacá, um dos poucos espaços de resistência da cultura na cidade de Campos”, considera. A médica Sandra Maria Santos também tem cadeira cativa no Goitacá. “Considero o Cine Clube um oásis de cultura em Campos. Na primeira fila à esquerda eu me sento. Formamos um grupo uníssono. O melhor é o debate após. Perdi a conta de quantos filmes assisti”, revela.

Cine Marighella  com sessões em várias cidades fluminenses(Foto: divulgação)

Cinema e educação

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense, funciona uma sala de cinema moderna e bem equipada no Centro de Convenções. Documentários e outros estilos costumam ser exibidos com entrada franca. Na Casa de Cultura Villa Maria, acontece o CineArte na Villa. No dia 26, por exemplo, foi programado o filme “Eu, Daniel Blake”, do cineasta inglês Ken Loach, seguido de debate. A Associação de Imprensa Campista e a Faculdade de Medicina de Campos também utilizam o conceito do cineclubismo para entreter, ensinar e discutir temas relevantes. Um dos organizadores de mostras é o fotógrafo e presidente da AIC, Wellington Cordeiro.

“A AIC possui dois projetos audiovisuais. O “Cine Jornalismo” acontece há 11 anos. Estamos preparando uma programação para comemorarmos os 90 anos da instituição, em junho. O “Balada Curta” dá ênfase à produção audiovisual campista. Já tivemos várias edições na sede e em outros locais da cidade”, destaca.

Para o jornalista Vitor Menezes, diretor do documentário “Forró em Cambaíba”, o cineclube tem o melhor lado que é o de reunir pessoas e debater obras. “Isso enriquece a cena cultural da cidade. Eu devo a esses espaços alternativos a exibição do meu filme, uma obra sem pretensões comerciais. Ele foi apresentado e debatido na UFF, Uenf, no Goitacá, Uniflu, entre outros. Continua sendo exibido em salas de aula, nas discussões sobre reforma agrária, sobretudo nas universidades”, explica. Segundo Vitor, o aspecto de formação de platéia e de pessoas interessadas em cinema por roteiros, edições, questões técnicas também estimula   formar novos cineastas.

Ativismo político

Ana Costa e Léo Puglia participam da exibição do filme “Pastor Cláudio”, na UFF

Em 2016, o publicitário Gustavo Machado, o mestrando Fábio Puglia e o jornalista e professor Leo Puglia criaram o Cine Clube Marighela. O nome homenageia o revolucionário brasileiro Carlos Marighella, o “inimigo número um da ditadura militar”. Realizaram 25 sessões em nove locais e em três cidades fluminenses, com  público de mais de mil pessoas. O principal objetivo é promover debates qualificados e estimular a formação de senso crítico, a transmissão de conhecimento e a construção de redes de resistência. As sessões acontecem em centros culturais, condomínios, pizzarias e em universidades públicas.

“O filme não precisa ter um caráter político explícito. Aliás, privilegiamos filmes comerciais com uma linguagem acessível à compreensão de qualquer tipo de público, independente do nível de escolaridade. O importante é que a história contada suscite algum tipo de debate e estimule a reflexão”, explica Léo Puglia.

Os filmes são escolhidos pelo próprio público através de enquetes online. “Nosso trabalho é voluntário, independente e focado na sociedade civil.  Campos é uma cidade que valoriza muito pouco a arte de uma maneira geral. Por isso,iniciativas de cineclubes em Campos são de extrema importância para oxigenar a vida cultural, fomentar o fluxo de ideias e, de certa forma, criar cidadãos mais críticos e ativos”, conclui Puglia.