Campos com um clima semiárido

Apesar das chuvas do ano passado e deste ano, a região acumula uma sequência de secas que a coloca no mesmo nível do Nordeste

Campos
Por Thiago Gomes
26 de maio de 2019 - 6h30

O baixo volume de chuva pode alterar a classificação do clima do Norte e Noroeste fluminenses. Pelo menos é o que pretende um Projeto de Lei (PL) protocolado em março deste ano na Secretaria Geral da Mesa da Câmara dos Deputados. A proposta classifica as duas regiões do Estado como áreas de semiárido e também cria um Fundo de Desenvolvimento Econômico. Se a reclassificação climática for aprovada no Legislativo e sancionada pelo Governo Federal, os nove municípios do Norte e os 13 do Noroeste passarão a contar com políticas direcionadas às cidades que sofrem com a seca, assim como já acontece no Nordeste. O clima semiárido é típico de regiões que recebem chuva abaixo da evapotranspiração potencial, mas que não chega a ser tão baixa quanto a de um clima desértico. São classificadas como regiões semiáridas aquelas cujo o índice de precipitação é inferior a 800mm por ano. Segundo dados da Coordenadoria de Defesa Civil de Campos, com exceção de 2018, os anos anteriores ficaram abaixo desta média classificatória. Em 2016 choveu no município 778,2mm, em 2017 foram 774,7mm e ano passado foram registrados 1.030,4mm. Em 2019 caíram na cidade 351,01mm de chuva.

A proposta do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), registrada com o número PL 1.440/2019, quer criar mecanismos institucionais de crédito e financeiros para destinar recursos para o desenvolvimento dos municípios que integram a região. De acordo com o texto do projeto, apesar de o Rio de Janeiro estar localizado no litoral do território brasileiro, “os padrões climáticos do território (do Norte e Noroeste) são contrastantes e com índices pluviométricos baixíssimos, cujo regime vem sofrendo diminuição drástica, o que contribui negativamente para o desempenho das atividades agrícolas, especialmente, porque dependem de recursos hídricos para a sua execução”. “O problema da estiagem é tão sério que nos últimos anos diversos municípios já decretaram estado de calamidade pública mais de uma vez”, afirmou o deputado.

Clima mais quente e seco
Um estudo do engenheiro agrônomo José Carlos Mendonça, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), aponta que o clima da região está mais quente e mais seco. A pesquisa estimou os índices hídrico, de aridez, e de umidade em cinco localidades da região Norte (Campos dos Goytacazes, Farol de São Thomé, Cardoso Moreira, Quissamã e Cacimbas, em São Francisco de Itabapoana). Foram utilizados dados médios mensais de temperatura e totais mensais de precipitação pluviométrica entre os anos de 1939 e 2017. A pesquisa mostrou tendência de elevação do índice de aridez e, consequentemente, redução dos índices hídrico e de unidade. Ainda segundo o levantamento, os meses mais secos na região são junho, julho e agosto e os mais úmidos são novembro dezembro e janeiro. Em relação ao volume de precipitação diária, observou-se, que ocorreram chuvas em apenas 25,15% dos dias.

Polêmica à vista
O meteorologista Carlos Augusto Souto ressalta que a reclassificação climática da região é um assunto polêmico e que divide os especialistas. Souto explica que, atualmente, o clima de Campos, pela classificação de Köppen-Geiger, é megatérmico com seca de inverno. Já pela classificação de Martone, é tropical com seca de inverno. Para o meteorologista, as chuvas que caíram em Campos, em maio deste ano, colocam em xeque a teoria da mudança para semiárido. “Esse assunto é polêmico e divide opiniões. Para uma alteração é preciso que os períodos de seca sejam constantes, e não temos observado essa constância. O mês de maio é uma prova disso”, analisou.

Crédito: Mayke Toscano/Gcom-MT

Pouca chuva, pouca cana
A escassez de chuva na região é um dos motivos para a queda gradativa da produção de cana-de-açúcar ao longo dos últimos anos, de acordo com o presidente da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan), Tito Inojosa. Ele lembra que, no final dos anos 80, as usinas do Estado produziam 10 milhões de toneladas de cana e geravam algo em torno de 60 mil empregos diretos. Para a safra deste ano, a expectativa do setor é moer 1.5 milhão de tonelada de cana e criar cerca de 6 mil postos de trabalho. “Para termos uma safra com alto índice de produtividade, são necessários de 1.100 a 1.200mm bem distribuídos de chuva no ano. Teve ano que registramos apenas 500mm”, destacou Inojosa. O presidente da Asflucan acredita que seja difícil trazer para a região todos os benefícios concedidos ao Nordeste pelo Governo Federal. Mas está otimista quanto à ideia transformar o Norte e o Noroeste fluminenses em uma área especial, com políticas mais efetivas voltadas para a seca. Inojosa revela que já existe um movimento de entidades para este fim, do qual participam, além da Asflucan, participam Sindicato dos Produtores Rurais, Sindicato Fluminense dos Produtores de Açúcar e Álcool, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana, Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Firjan, universidades, Coagro e o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense (Cidennf).

Pouca produtividade em tempos de seca
A produtividade a agropecuária também despenca no período de seca. Por isso, o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Campos, Ronaldo Bartholomeu, acredita que uma reclassificação climática será benéfica para o homem do campo. Ele lembra da seca que atingiu o município em 2014, quando pecuaristas tiveram que vender o gado abaixo do preço, para outras regiões, para minimizar os prejuízos. “Essa reclassificação nos ajudaria bastante, com implementação de políticas públicas”, comentou. De acordo com relatório divulgado pela Prefeitura de Campos em 2014, o prejuízo causado pela estiagem naquele ano ultrapassou R$ 128 milhões.

Meio Ambiente e Cidennf se posicionam
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Ambiental, Leonardo Barreto, seria necessário um estudo climático profundo, com um banco de dados maior e com análises por maior tempo, para afirmar uma alteração climática em Campos. Ainda de acordo com o secretário, apesar do clima da região apresentar modificações durante os anos, é necessário certo cuidado para ser considerado semiárido. “Nos dois últimos anos tivemos momentos de escassez de chuva. Porém, na época não foram identificados todos os requisitos para decretarmos estado de emergência. Logo depois, tivemos um período de bastante chuva, quase se tornando estado de calamidade em algumas regiões”, destacou. O secretário de Agricultura, Nildo Cardoso, disse que analisa a pesquisa para ações a serem desenvolvidas. O Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense (Cidennf) solicitou formalmente à Embrapa um estudo mais detalhado para atualização da classificação climática em Campos.