A chatice do politicamente correto

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. aborda a liberdade de expressão e o politicamente correto

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Por Paulo Cassiano Júnior
12 de maio de 2019 - 14h53

Menos de uma semana após vencer a última edição do “Big Brother Brasil”, a mineira Paula von Sperling Viana deixou de lado o glamour das celebridades descartáveis para virar notícia nas páginas policiais. Com o prêmio de R$ 1,5 milhão na conta e um sorriso de constrangimento nos lábios, ela entrou na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância para ser indiciada por injúria por preconceito religioso. Seu crime: quando ainda estava no jogo, em diálogo com outros participantes, Paula disse ter medo de Rodrigo, seu colega de programa, por ele “mexer com esses trecos de oxuns”, e que o seu Deus “era maior”.

O episódio vivido pela estudante remete a um imbróglio de natureza semelhante protagonizado pelo padre Fábio de Melo, no ano passado. Durante a homilia de uma missa que celebrava na Canção Nova, o sacerdote afirmou: “Com todo respeito a quem faz macumba, pode fazer, pode deixar na porta da minha casa que, se estiver fresco, a gente come”. Não foi importunado pela polícia, mas sofreu tanta pressão que foi obrigado a se desculpar publicamente.

Casos como esses incendeiam o debate sobre os limites entre a liberdade de expressão e o que se convencionou chamar de politicamente correto.

O sentido etimológico do termo aponta para uma convivência comunitária respeitosa: cidadãos na “polis” (cidade) relacionando-se “corretamente”. Por trás do conceito, reside a ideia de se associar empaticamente ao outro, prevenindo que este seja ofendido ou estigmatizado. Comportar-se de maneira politicamente correta compreende cautela no emprego das palavras, de modo que a construção do discurso evite ideias discriminatórias. Assim, “favela” vira “comunidade”; “negro”, “afrodescendente”; “cego”, “deficiente visual”.

Apesar da nobreza desse propósito, nos últimos anos parece ter havido um certo exagero na aplicação prática do conceito, já que o politicamente correto se converteu num permanente patrulhamento sobre a comunicação alheia. Esse controle gera um constante receio de que as pessoas se expressem de maneira socialmente “inadequada” e sejam responsabilizadas por isso, (afinal, vivemos num tempo em que todo mundo se melindra por qualquer coisa). Como consequência desse medo, formam-se grupos sociais constituídos por fortes afinidades ideológicas internas, as quais impedem a interação com outros grupos sociais com posições divergentes. O resultado final desse processo de segmentação é a restrição à liberdade de manifestação de pensamento e a atrofia do debate público, ou seja, exatamente o oposto à pretendida convivência na “polis”.

Como sacerdote católico, Fábio de Melo tem a responsabilidade de educar seus fiéis na doutrina cristã, a qual prega o respeito incondicional ao outro. Portanto, não parecem apropriadas referências públicas a religiões de matriz africana de modo tão zombeteiro, pois, vinda de um líder, essa postura irreverente pode ser compreendida como estímulo ao ultraje à fé alheia. Entretanto, é preciso defender a prerrogativa do padre, da ex-BBB ou de qualquer pessoa de se posicionarem sobre as suas próprias crenças, ainda que isso confronte os postulados de outras religiões. Ninguém é obrigado a crer em Deus, mas quem crê tem o direito de sentir medo da prática espiritual diversa, tanto quanto de considerar o seu Deus maior do que o dos outros. Que problema há nisso?

Como em tudo na vida, é necessário equilíbrio. Fora de medida, o politicamente correto torna o convívio social uma tremenda chatice.