Caótico trânsito de Campos em estado de alerta

Especialistas e usuários falam sobre imprudência, punições e melhorias para o tráfego no município

Trânsito
Por Redação
31 de março de 2019 - 9h56

Por Priscilla Alves e Ulli Marques

 

Confusão no trânsito de Campos preocupa especialistas e usuários (Fotos:Silvana Rust)

Há um consenso entre os motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres que se aventuram pelas ruas de Campos: o trânsito nessa cidade é caótico. Não se sabe quais os critérios que os levam a afirmar isso de forma tão contundente, mas quem já precisou atravessar na faixa, transitar pelas ciclovias ou aguardar o sinal verde do semáforo teve a oportunidade de presenciar a imprudência de muitos, mesmo com as leis do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estando mais rigorosas a cada ano. Contudo, ainda que a máxima seja que os motoristas de Campos não respeitam a legislação, esse não é só um problema local, embora o descumprimento seja tão comum por aqui. Ao menos é o que apontam os especialistas de trânsito.

Acontece que o problema, segundo eles, é consequência da falta de educação por parte dos indivíduos, além de outros fatores práticos enumerados pelo especialista em Direito de Trânsito e analista de Gestão e Trânsito do Detran-RJ, Marcelo Gomes. De acordo com ele, Campos não é a única cidade a exemplificar esse cenário da negligência. “São poucas as exceções no Brasil, como Brasília, Curitiba e até algumas cidades do estado do Espírito Santo, entre elas Guarapari, muito visitada pelos campistas que costumam voltar de lá revoltados ao compararem aquela realidade com a nossa, principalmente em relação às faixas de pedestres, que são respeitadas. Mas há um engano quando os elementos do trânsito afirmam que a questão é mais acentuada em Campos. O desrespeito às leis acontece em todo e qualquer lugar”, explica.

Para o motorista Raphael Dias, o grande problema do trânsito de Campos é, de fato, o modo de dirigir de grande parte das pessoas. “O trânsito aqui é muito complicado por causa da falta de educação. Se todos respeitassem mais o espaço e as obrigações, seria melhor. Temos as vias expressas e o que a gente percebe é que quem anda na direita anda rápido, e na esquerda as pessoas seguem muito devagar. Não dá pra entender. Além disso, parece que os motoristas estão mais dispersos e por isso acabam acontecendo acidentes bobos”, desabafou.

Camila Machado é motociclista e trafega pelas ruas da cidade diariamente há pelo menos cinco anos. Na opinião dela, em meio à desordem, o maior risco é para quem está nas motos. “Mais prejudicados no trânsito somos nós, motociclistas. Os carros têm vários pontos cegos e a moto é um veículo menor, porém rápido – o que eu acho que colabora para que alguns motoristas não percebam a nossa aproximação. Para piorar, uma queda de moto é muito perigosa”.

Medidas

Sobre essa falta de educação, o especialista em Direito de Trânsito, Marcelo Gomes, orienta que ações de conscientização podem ajudar a melhorar esse cenário, mas essa atitude deve ser tomada “desde a pré-escola até a universidade”. Ele conta que já há previsões de que isso aconteça. “No Rio, o Detran desenvolve um trabalho nas escolas com relação à educação para o trânsito e, em Campos, duas unidades de ensino já são contempladas. Campanhas nas ruas também podem ser úteis”, acrescentou.

Questionada sobre esse tipo de ação, a coordenadora de desenvolvimento profissional do Sest Senat, Adriana Moreira de Souza Soares declarou que o órgão realiza campanhas frequentes. Entre elas, está, por exemplo, a van itinerante que circulará por algumas empresas do setor de transporte de modo a fazer um trabalho corpo a corpo com os motoristas. Adriana lembra ainda que, neste mês de maio, vai haver um evento em parceria com a Polícia Rodoviária Federal em que os agentes orientarão motoristas e caminhoneiros.

“Nós, do Sest Senat, enxergamos a necessidade de conscientização e entendemos também que esse é um trabalho de ‘formiguinha’, porque temos de colocar na cabeça das pessoas a importância da mudança comportamental”, afirmou.

A coordenadora citou também o trabalho em torno do simulador de acidentes que simula situações reais de atropelamento, batidas etc. “Com o simulador, os motoristas conseguem perceber que, em segundos, ao pegar um papel no fundo do carro ou enviar uma mensagem, vidas podem ser comprometidas”, concluiu.

O instrutor do Sest Senat, Felipe Said, destacou ainda a importância da fiscalização. “A conscientização é essencial, mas fiscalizar o cumprimento das normas é tanto quanto”. Nesse sentido, a Guarda Civil Municipal (GCM) vem adotando medidas para melhorar a forma de atuação dos condutores de veículo na cidade e entre essas está a intensificação de fiscalização para coibir irregularidades; as constantes campanhas de educação e prevenção de acidentes de trânsito nas escolas, nas vias de trânsito e nas empresas que têm frotas de veículos; além de palestras nas instituições de ensino municipal e estadual.

O comandante da GCM, Fabiano Mariano, ressalta que “todos que compõem esse meio têm responsabilidades diretas no convívio diário do fluxo que movimenta a sociedade”. De acordo com ele, “precisamos expandir o conceito de responsabilidade e repassá-lo para a sociedade, pois não basta a fiscalização, a orientação e a educação de trânsito, se o público alvo não estiver disposto a aceitar e pôr em prática as normas de trânsito”.

O presidente do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), Felipe Quintanilha, destaca que “é necessário que todos se conscientizem sobre o respeito à legislação de trânsito, utilize os equipamentos de segurança necessários e, também, respeitem a hierarquia das responsabilidades conforme prevê o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). A lei é clara: condutor de veículo maior deve zelar pelo usuário mais vulnerável”.

Quintanilha acrescenta que o IMTT está revisando o Plano Diretor e criando o Plano de Mobilidade Sustentável, que dita as regras e diretrizes “para que Campos possa se tornar, a médio prazo, um município onde as pessoas se desloquem de forma segura”.

Sobre essas ações, Marcelo Gomes, especialista em Direito de Trânsito, lembra que a manutenção em relação à sinalização é outro ponto que deve ser priorizado pelos órgãos públicos. “A Secretaria de Obras do município também tem de fazer uma fiscalização em cima das novas construções para verificar se essas não estão afetando o trânsito. Há na Avenida 28 de Março, por exemplo, uma construção que avançou pela calçada e deixou apenas 30 cm para os pedestres que precisam invadir a área do veículo. A chance de acontecer um acidente é grande. Pinturas de faixa, instalação de semáforos e manutenção de ciclovias também são essenciais. Temos de pensar que esse é um trabalho global que deve ser feito de forma eficiente e constante. Isso vai trazer mais qualidade ao trânsito de Campos”, concluiu.

Números

De acordo com estudos realizados pela coordenação de trânsito da Guarda Municipal, Campos registra casos de desrespeito às sinalizações de trânsito, incluindo estacionar e parar os veículos em locais proibidos, como sobre a calçada, em frente a portão de garagem, em fila dupla obstruindo as vias, avançando semáforos e falando ao telefone celular enquanto dirigem, esses últimos são as infrações mais graves.

Em 2018, a Guarda Civil Municipal registrou 42.443 multas. Em 2019 (janeiro e fevereiro) foram 5.371 multas. As multas, em sua maioria, correspondem às infrações citadas, acrescidas de falta de capacete.

Segundo o instrutor do Sest Senat, Felipe Said, o excesso de velocidade é a campeã das infrações e pode ser de natureza média, grave ou gravíssima, dependendo de quanto for o excesso. Ele explica que se o motorista estiver dirigindo até 20% acima da velocidade permitida, considera-se como uma infração média. Entre 21% e 50%, grave. Mais de 50%, é gravíssima. Avanço de semáforo e manuseio de celular no trânsito também são infrações gravíssimas e a penalidade é a perda de sete pontos da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

“Todas as três têm risco acentuado, mas o excesso de velocidade causa um dano maior por causa da consequência do acidente, uma vez que o motorista pode ter menos tempo de reação em caso de acidentes”, explicou.

Ciclovias e ciclistas

Campos possui mais de 50 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorotas. A ciclovia Patesko é a maior e principal com cerca de seis quilômetros de extensão e que liga a Penha ao Parque São Caetano, passando por vários bairros. Outras importantes ciclovias estão nas avenidas José Carlos Pereira Pinto, na Avenida Nazário Pereira Gomes, em Guarus, e na Avenida Arthur Bernardes.

Embora o município tenha ciclovias em vários trechos, a ciclista Bianne Vieira – que pedala todos os dias para trabalhar e aos fins de semana como atleta – comenta a necessidade de mais espaços deste tipo e mais respeito às leis de trânsito.

“O trânsito aqui em Campos é muito caótico, mas vejo que a ciclofaixa é algo que deu certo, apesar de alguns motoristas que param em cima. Talvez leis mais duras e mais fiscalizações resolvessem, além disso poderíamos ter ciclovias em mais lugares, porque as que temos não são suficientes”, lamentou.

Em relação a isso, o presidente do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), Felipe Quintanilha, garantiu que mais de 100 vagas para bicicletas foram criadas em vários pontos da cidade recentemente. “Um amplo projeto de bicicletários está previsto para ser implantado ao longo deste ano, incentivando o uso de bicicletas”, informou por meio de nota.

Sobre as penalidades impostas aos motoristas que não respeitam os espaços dos ciclistas, elas podem variar, segundo o especialista em Direito de Trânsito e Analista de Gestão e Trânsito do Detran-RJ, Marcelo Gomes. “Os condutores de veículos automotores que infringem regras referentes a ciclistas podem cometer infrações das mais diversas. No caso de circular por ciclovias, por exemplo, a infração é gravíssima e a multa pode chegar a R$ 880”, explicou.

Educadores de trânsito

A conscientização de pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas também é um fator primordial para que todos possam ter maior segurança no trânsito. Por este motivo, o IMTT desenvolve o programa “Agentes Educadores de Trânsito”, que conta com a atuação de 32 jovens em pontos movimentados da cidade. Pelo programa, eles atuam em áreas próximas a escolas, na orientação de pedestres, ciclistas, motociclistas e condutores de carro e caminhão.

“Enfrentamos muitos problemas por aqui pelo desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e desenvolvemos o projeto dos Agentes Educadores de Trânsito, que tratam a educação no trânsito, mudando o perfil do campista nos principais cruzamentos do município e próximo às escolas para buscar melhorar o trânsito. Também temos estabelecidas novas estruturações que envolveram, ao longo dos próximos meses, a implantação de novas vias e a reorganização de vias já estruturadas”, explicou Quintanilha.

Ainda sobre os educadores de trânsito, eles estão aptos a orientar sobre regras básicas, como: uso do cinto de segurança, crianças na cadeirinha e respeito à sinalização. Eles estão uniformizados e não têm poder de aplicar multas.