Em primeira mão até decepar

Não acho que o prazer de dar um ‘furo’ tenha que ser excluído da mente dos jornalistas

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Por Cláudio Andrade
25 de março de 2019 - 10h43

Com o advento das redes sociais, os meios de comunicação tradicionais, principalmente os jornais impressos, foram obrigados a se aperfeiçoarem, junto com os meios digitais, para não se tornarem obsoletos.
A migração do impresso para o on line se tornou obrigatório pois as plataformas de smartphones fez com que o tradicional corresse o risco de morrer.

Porém, o objeto principal desse artigo é o ranço que muitos periódicos impressos carregam de terem sempre que noticiar que foram os primeiros a darem alguma nota. Até o falecimento de alguém é ressaltado com ênfase. Ou seja, em busca de um nem sempre fiel leitor, algumas redações de jornal brigam até pela primeira coroa que chega ao cemitério.
O grande lance hoje é a complementação das matérias e cabe ao leitor, só a ele, a escolha por qual site ou impresso guiará a sua formação sobre aquele referido tema.

Um acidente automobilístico pode ser noticiado em primeira mão por um meio de comunicação, a morte do motorista por outro e a descoberta que o motivo do acidente foi um problema mecânico por uma terceira plataforma de notícias.

Não acho que o prazer de dar um ‘furo’ tenha que ser excluído da mente dos jornalistas. Pelo contrário, ele deve ser incentivado, porém, esse desejo, quase patológico de alguns, não pode se sobrepor à matéria bem dada, sem centenas de chutes até acertar.
Essa primeira mão que erra mil vezes antes de acertar é feita de tentativas desequilibradas que visam nada mais do que uma satisfação interna, sem qualquer compromisso com o que está sendo noticiado.

Trata-se do clássico ‘cego em tiroteio’. O cara, ao sentir que alguma coisa pode acontecer na cidade, no estado ou em Brasília, por exemplo, abre o ‘baú da especulação’ e joga todas as possibilidades de acertar para o alto e como atira, de forma inconsequente para todos os lados, acaba por acertar. Um acerto, diga-se de passagem, assemelhado a um nada, tamanha a quantidade de especulações vazias.

Essa primeira mão desgovernada acaba, na maioria das vezes, levando o afoito noticiador à contramão e ao invés dos louros acaba por ter a mão decepada como exemplo para os demais jornais, que ainda acham ser possível, nos dias atuais, serem donos integrais de uma notícia. Isso não existe mais.

Atualmente, quem é antenado, dá furo sim, mas compartilha, debate, dá fonte, respeita o trabalho alheio e põe a arrogância dentro da gaveta, junto, de preferência, com a primeira mão.