Lagoa de Cima: paraíso à espera de infraestrutura

A população local vive basicamente do turismo, do comércio e da pesca artesanal, mas é durante o verão que a atividade econômica ganha mais força

Geral
Por Thiago Gomes
17 de fevereiro de 2019 - 0h10

Um paraíso a 28 quilômetros do Centro de Campos dos Goytacazes, onde a violência ainda não tira o sono dos seus habitantes. Lagoa de Cima virou um dos principais pontos turísticos do município e essa fama é atribuída à tranquilidade e, principalmente, às belezas naturais, que encantaram até D. Pedro II. De acordo com registros históricos, durante uma das passagens do monarca à região, o último imperador do Brasil chamou Lagoa de Cima de “Lago dos Sonhos”. A população local vive basicamente do turismo, do comércio e da pesca artesanal, mas é durante o verão que a atividade econômica ganha mais força devido ao aumento de turistas que buscam degustar um peixe frito servido entre as mais belas paisagens. Contudo também há problemas no paraíso: um dos principais acessos, a estrada que liga a localidade ao distrito de Santa Cruz, não tem espaço para mais buracos. Outra questão levantada por moradores e visitantes diz respeito ao transporte público, que deixa a desejar.

Apesar do aumento de turistas durante a alta temporada, Lagoa de Cima recebe visitantes o ano todo. “É só fazer calor para a lagoa encher de gente. Isso o ano todo”, comentou o comerciante Carlos Roberto da Conceição Silva, mais conhecido como Branco. Ele, que tem um quiosque à beira da lagoa, acredita que a localidade não recebe os mesmos incentivos da Prefeitura que a Praia de Farol de São Thomé.

“A gente não vê uma única publicidade na televisão chamando a população para Lagoa de Cima. Em Farol a programação artística e esportiva é muito mais elaborada que em Lagoa de Cima. Enquanto lá só funciona durante o verão, nós temos movimento o ano todo. Imagina se tivéssemos mais incentivo?”, questionou o comerciante, que também reclamou do mato alto à beira da lagoa e do precário estado de conservação da estrada que liga Lagoa de Cima a Santa Cruz.

Também é possível chegar à lagoa por uma estrada que liga o ponto turístico à BR-101, na localidade da Tapera. Ao contrário do outro acesso, ele está em boas condições da tráfego.

Sobre investimentos para a alta temporada, a Prefeitura informou que “Lagoa de Cima conta com programação de shows e atividades para crianças elaboradas pelas superintendências de Entretenimento e Lazer, Comunicação, Limpeza Pública, Guarda Civil Municipal, entre outros órgãos envolvidos. Além dos shows de artistas locais, também está sendo desenvolvido no balneário o projeto Educa Verão, dentro do projeto Verão 2019. Tanto em Farol como em Lagoa de Cima estão sendo valorizados os artistas locais. Os shows nacionais do Farol de São Thomé estão sendo financiados através do Sesc Rio e outras parcerias”.

A respeito do trabalho de recuperação da estrada de Santa Cruz x Lagoa de Cima, a secretaria de Infraestrutura e Mobilidade Urbana informa que iniciou o serviço em janeiro, mas, devido a problemas e interrupções no fornecimento de insumos de asfalto por parte das refinarias, teve que reduzir temporariamente o cronograma de execução dos serviços. A expectativa é que o fornecimento seja normalizado nos próximos dias e, assim, o trabalho na estrada possa ser concluído.

A Superintendência de Limpeza Pública informou que intensificou os trabalhos no balneário aos finais de semana e que outra equipe irá ao local verificar a reclamação dos donos de quiosques, pois há também no entorno da lagoa vegetação nativa.

Estrutura
Moradores e turistas de Lagoa de Cima contam com uma estrutura formada por Unidade Básica de Saúde (UBS), creche, escola, posto dos Correios, padaria, praça com banheiros públicos, pousadas, mercadinhos e restaurantes. Se a estrutura funciona? As opiniões divergem.

A escola local, por exemplo, só oferece aulas até o quinto ano do ensino fundamental. A partir do 6º ano, as crianças precisam se deslocar para estudar em outras localidades, conforme reclamou a moradora Luciana da Conceição e Silva.

Sobre a UBS, o comerciante Branco disse que frequentadores do seu quiosque já reclamaram que na unidade, às vezes, falta até dipirona.

Já o morador Luciano Soares elogiou os serviços prestados pela UBS e também pela escola, onde dois de seus três filhos estão matriculados. O morador, que é dono de um comércio, também comentou sobre os baixos índices de furto e roubo na localidade. “Aqui é uma tranquilidade, não temos violência. É um ótimo lugar para viver e criar os filhos. Não troco por cidade alguma”, destacou.

A secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Smece) informou que a localidade conta com uma creche e com a Escola Municipal Ponta da Palha, que atende Fundamental I (até o quinto ano). Os estudantes de Fundamental II da localidade são direcionados às unidades de Morangaba e da Tapera. “A Smece oferece transporte escolar. A lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional exige que a oferta de sexto ao nono ano seja compartilhada entre Estado e Município. O município vem absorvendo a demanda aos poucos, dentro das possibilidades financeiras e logísticas atuais, utilizando unidades já existentes”.

Segundo a secretaria municipal de Saúde, para garantir que turistas e moradores aproveitem o local em segurança, o horário de atendimento na UBS foi estendido e, neste período, também está funcionando aos sábados e domingos.

Transporte
Transporte público é um problema. Chegar e sair de Lagoa de Cima deveria ser mais fácil por se tratar de uma atração turística, na opinião do morador Farid Leonardo. Ele administra um bar à beira da lagoa junto com a mãe e relata passar dificuldade toda vez que precisa se deslocar até Campos. “Os ônibus ficam ainda mais escassos na parte da tarde. Há intervalos longos entre um horário e outro, o que complica a vida de todo mundo”, destacou.

O turista Luiz Henrique Machado também reclamou da linha Campos x Lagoa de Cima. Ele, que é natural de Volta Redonda, mudou-se para o município há cerca de cinco meses por causa do trabalho e não abre mão de curtir a beleza e a tranquilidade do balneário com os amigos, apesar da dificuldade de chegar até lá. “É um lugar muito bonito, mas ônibus é um problema. A gente fica bastante tempo esperando”, falou.

De acordo com o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), este mês, o órgão não recebeu reclamações sobre falta de ônibus na localidade. “Devido à grande procura por Lagoa de Cima, nos finais de semana, os horários dos ônibus com destino ao balneário foram intensificados. Os ônibus saem da rodoviária Roberto Silveira aos sábados a cada duas horas, sendo o primeiro horário às 9h e o último 17h. Na volta, esse intervalo alterna, segundo a demanda. O primeiro horário é 6h e o último 19h. Aos domingos são disponibilizados mais horários, pois, neste dia, o número de visitantes é maior. O primeiro ônibus sai da rodoviária às 8h30 com destino à lagoa e o último às 19h. Saindo da lagoa, o primeiro ônibus será às 6h e o último às 20h”.

Atrativos
A lagoa de 14,95km² de área e quatro metros de profundidade (dados do IBGE) que deu nome à localidade fica no distrito de Ibitioca e é alimentada pelos rios Imbé e Urubu, ambos com suas nascentes no Parque Estadual do Desengano, na Serra do Mar. Ela deságua no rio Ururaí que tem sua foz na Lagoa Feia. O entorno da lagoa também oferece diversas opções de trilhas, que podem ser feitas a pé ou a cavalo.

O Yatch Club de Lagoa de Cima, fundado em 22 de julho de 1956, é opção para quem frequenta o balneário e quer praticar esporte ou simplesmente relaxar.

A fé também motiva a comunidade. São duas celebrações no calendário religioso local. No dia 22 de maio acontece a festa de Santa Rita de Cássia, cuja igreja está localizada no alto do morro ao lado do Yatch Club. Segundo registros da Prefeitura, a construção é de 1962. A primeira igreja, que pegou fogo, foi construída no pé do morro pelo vigário João Carlos, pai do abolicionista José do Patrocínio, que era devoto da santa. Já em 5 de outubro os moradores festejam São Benedito. A Capela de São Benedito é datada de 1929, segundo o Anuário de Campos 2018 (uma publicação do Centro de Informações e Dados de Campos – Cidac).

Privatização?
Um morador que preferiu não se identificar reclamou que tem ocorrido uma espécie de “privatização” da faixa de areia da lagoa. Há pontos de cobrança de estacionamento e em outros locais mourões de madeira foram instalados para impedir a passagem. “A gente não tem direito mais de trazer as coisas de casa porque a gente agora é obrigado a consumir tudo do bar”, disse o morador, referindo-se à taxa de consumação mínima de R$ 80 que alguns bares cobram.
A secretaria de Desenvolvimento Ambiental informou que realiza fiscalizações constantes em diversos pontos município, inclusive, mediante denúncias. “A secretaria está programando nova ação na região da Lagoa de Cima e, diante do encontrado, tomar as medidas necessárias, conforme estipula Lei Ambiental e de constituição da Área de Proteção Ambiental (APA) de Lagoa de Cima. Caso a população identifique situações irregulares, a secretaria de Desenvolvimento Ambiental pode ser acionada pelo telefone (22) 98175-0207 ou mesmo a Guarda Civil Municipal, através do 153, que também recebe este tipo de denúncia”.

Ecoturismo e turismo rural
O diretor do Departamento de Turismo de Campos, Hans Muylaert, ressaltou que desde o ano passado o órgão vem mapeando e traçando todo roteiro do ecoturismo e turismo rural naquela região, desde a saída do Shopping Estrada, entrando pela Tapera e sinalizando para a Área de Proteção Ambiental (APA) do Itaoca, Rio Preto, Lagoa de Cima, até chegar à Região do Imbé. “Lagoa de Cima é considerado um dos mais belos equipamentos turísticos do município, um verdadeiro paraíso que recebe muitos visitantes, principalmente nesta época do ano. Infelizmente, temos informações de que, por muito tempo, estava esquecida”, comentou.

Ainda segundo Hans, o Departamento de Turismo já está com atividades programadas para o Carnaval e feriados na localidade. “Estamos fazendo um grande verão em Lagoa de Cima, com shows valorizando artistas locais, atividades da secretaria de Educação, Cultura e Esportes e um projeto de manejo, desenvolvido pela secretaria de Desenvolvimento Ambiental. Estamos fazendo tudo para atender melhor tanto aos moradores da região como visitantes, de forma sustentável. A Lagoa de Cima faz parte de todo um complexo de belezas naturais onde o turismo tem sido fomentado de forma harmônica com o Meio Ambiente”, finalizou Muylaert.