Opinião: Brumadinho em recordações, belezas, tragédia e dor

Repórter do Jornal Terceira Via que já esteve na região, relembra do paraíso que virou lama

Artigo
Por Priscilla Alves
4 de fevereiro de 2019 - 16h24

Repórter posa na Cachoeira da Ostra (Foto: Arquivo Pessoal)

Era um dia quente de abril de 2014. O local era Brumadinho, Minas Gerais, e tudo era muito diferente dos dias atuais. Entusiasmo, risos, histórias e algumas paradas para foto até a chegada no destino final: a Cachoeira da Ostra. Todas essas memórias de quando estive naquele lugar tão lindo e encantador voltaram à tona quando ouvi a primeira notícia da tragédia que fez centenas de vítimas. Brumadinho era o mesmo lugar em que já estive e quase tudo agora é lama e tristeza.

Entre tantas notícias destes últimos dias sobre a tragédia causada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos da mineradora Vale, li sobre a morte do dono de uma conhecida pousada na região. Era o empresário Márcio Mascarenhas, um senhor de 74 anos que havia postado, há cerca de um ano, um desabafo nas redes sociais sobre as mudanças provocadas pela atuação da Vale na área.

Em uma das fotos que ilustrava a tal reportagem, o senhor Márcio posava no mirante da Serra do Rola Moça. O local era o mesmo em que eu também havia parado para uma selfie quando estive por lá e fica na mesma região da barragem rompida. Não sei se a paisagem continua a mesma ou se também foi tomada pela lama, como tantas outras áreas ali perto. Mais uma vez foi como se tivesse passado um filme diante dos meus olhos.

Entre as recordações, lembro que me encantei com o tratamento que recebi nos dias em que estive em Minas Gerais. Sentir como é o tal “jeito  mineirinho” foi como se eu estivesse em casa. O carinho, atenção, educação e simplicidade marcaram. Nunca mais voltei, mas lembro com carinho sempre. Agora é dor. Perda. Tristeza. Desamparo. Desespero… Cada nova reportagem, vídeo ou relato é angustiante. A forte onda lamacenta tomou o espaço que antes era predominantemente verde, arrastou tudo e só deixou dor.

Todo o trajeto até a Cachoeira da Ostra, o destino final do passeio, era lindo. A rota incluía um pequeno vilarejo daqueles do tipo em que os moradores ficam sentados na frente de suas casas e cumprimentam até os desconhecidos que passam de carro. Outro trecho era uma longa caminhada por uma trilha que incluía descida de rochas e tinha nível considerado difícil. A recompensa eram as águas cristalinas e refrescantes da cachoeira – uma das mais lindas que conheci. Este ponto não foi tomado pela lama, mas não se sabe se um dia poderá voltar a ser desfrutado, principalmente pela possibilidade de contaminação de toda a região através do lençol freático.

Em meio a toda essa tragédia ambiental – que pode demorar décadas para ser revertida ou nunca ser – a maior de todas as tragédias é a humana. Além das perdas, há ainda o medo de que episódios piores do que esse voltem a ocorrer no futuro.  A nós, resta pouco: ajudar da forma que pudermos, cobrar das autoridades para que duras penas sejam aplicadas aos responsáveis e as boas lembranças do que dificilmente voltará a ser o que já foi um dia.

Dono de pousada no Rola Moça (Foto: divulgação)

Repórter Priscilla Alves no Mirante do Rola Moça  (Foto: Arquivo Pessoal)