João de Quem?

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. aborda a ascensão e queda do médium João de Deus

Artigo
Por Paulo Cassiano Júnior
6 de janeiro de 2019 - 0h01

Quando os primeiros relatos de abuso sexual atribuídos a João de Deus foram divulgados, ninguém seria capaz de imaginar que o caso atingiria proporção tão grave.Até o último dia 21, nada menos que 596 mulheres procuraram o Ministério Público e a Polícia Civil de Goiás para denunciar terem sido vítimas de violação durante tratamento espiritual.

Como era de se esperar, o inquérito policial instaurado para apurar crimes sexuais conduziu o médium à prisão.Buscas e apreensões cumpridas em sua residência encontraram mais de R$ 1,6 milhão em espécie, pedras preciosas, munições e seis armas, uma delas sem numeração.Além disso, as investigações apontam que o líder religioso teria retirado R$ 35 milhões de contas e aplicações financeiras desde que as primeiras denúncias vieram à tona, supostamente para frustrar eventual medida da Justiça.

João Teixeira de Faria tinha somente 34 anos de idade quando, em 1976, fundou a Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, no entorno do Distrito Federal. Ao longo do tempo, sua habilidade mediúnica fez fama internacional com a realização bem-sucedida de cirurgias espirituais em situações já desenganadas pela Medicina. Não por acaso, o centro religioso, anunciado como “hospital espiritual e templo ecumênico”, atraía até 10 mil pessoas por mês, oriundas de todas as partes do mundo, em busca de curas e orações.

Para a sociedade, João de Deus sempre foi um caridoso líder cuja missão espiritual se confundia com a realização do bem. O testemunho dos milagres operados por suas mãos era contado por artistas, jogadores de futebol, presidentes da república e pessoas comuns. No desempenho de seu personagem social, encantava as pessoas e não levantava a mínima suspeita. Contudo, por trás do João de Deus, havia o João Teixeira de Faria, que teve a sua humanidade visceralmente desnudada em rede nacional, em sua pior faceta.

De uma hora para outra -e não sem razão -, o homem antes admirado e requisitado tornou-se alvo de reprovação e vergonha (não é difícil chutar cachorro morto).É preciso reconhecer que a linha entre a glória e a ignomínia costuma ser muito sutil. O que muitas vezes separa a vitória do fracasso não passa de um simples detalhe. Leva-se muito tempo para se construir uma reputação, mas pouco é necessário para arruiná-la. Não fosse pela primeira denúncia, talvez nenhuma das quase seiscentas outras fosse feita.

Quando um escândalo como esse explode, penso que devemos fazer disparar nossos mecanismos de autocrítica: em que nos assemelhamos a João de Deus e nos distinguimos dele? Um mínimo de humildade é suficiente para revelar que não são os nossos méritos nem as nossas virtudes que nos mantêm de pé e distanciam de errar como ele, mas a misericórdia de Deus e a Sua inesgotável disposição para perdoar. Maldade, ganância, corrupção, perversidade não são indiferentes a nenhum de nós. Que a mão da justiça humana pese sobre ele, e que as nossas se constranjam em atirar a primeira pedra.