Um defensor da literatura

Tiago Abud trabalha há 18 anos na Defensoria Pública de Campos e acaba de lançar seu primeiro romance

Cultura
Por Ocinei Trindade
31 de dezembro de 2018 - 10h45

(Foto: Divulgação)

O livro “Entre putas, ratos e juízes – Histórias de um Defensor” foi lançado pela Editora Autografia (2018) no início deste mês na Academia Campista de Letras e na Associação dos Defensores Públicos do Rio de Janeiro. Após publicações de obras jurídicas, Tiago Abud da Fonseca faz suas estréia no gênero romance. Por seis anos, ele dedicou-se a construir uma obra de ficção inspirada em sua rotina de trabalho. Faz 18 anos que o escritor atua na Defensoria Pública de Campos e leciona em cursos de Direito.

Tiago Abud criou um personagem chamado Salvador Fidelis, que é um defensor público que acaba de se aposentar. Em seguida, passou a dar aulas em um curso universitário em uma disciplina criada para ele. Entre palestras, aulas e visitas aos presídios com alunos, ele narra situações vividas no ofício. Uma outra protagonista é a universitária Themis (nome da deusa da Justiça) que cruza o caminho do defensor aposentado. A jovem se prostitui para pagar a faculdade. Ambos se envolvem e a história passa a se desenvolver entre dramas e reflexões.

O título da obra “Entre putas, ratos e juízes” tem provocado uma indagação e aguçado a curiosidade das pessoas, segundo o autor. “Por que juntar putas, ratos e juízes? O pré-julgamento acontece antes das pessoas lerem a obra. É o que tem acontecido no nosso cotidiano. Uma pessoa lê uma manchete de reportagem, não lê o conteúdo e já sai julgando o título, formando convicções com a velocidade típica da internet. O defensor público freqüenta os ambientes dos juízes, mas também os locais de miséria, os presídios onde os ratos representam a pobreza, os ambientes contrários ao sistema, os bancos dos réus condenados pela justiça criminal. O mesmo ocorre com as prostitutas que costumam ser pré-julgadas ou condenadas aleatoriamente. Eu presto uma singela homenagem ao escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez, pela obra “Memórias de minhas putas tristes”. Meus personagens protagonistas têm um pouquinho a ver com este livro de Gabô”, comenta Abud.

A obra reúne casos em que Tiago Abud atuou na Defensoria Pública. “Trata-se de um romance baseado em fatos concretos. O livro tem a finalidade de perpetuar a memória desses casos para que a gente não passe por essas situações novamente na Justiça Criminal e no Centro Penitenciário. Embora romanceado, é um olhar crítico sobre tudo que um defensor viveu nas varas criminais em que ele esteve atuando, em nome dos réus pobres que são as pessoas que um defensor público atende. A gente conseguiu contar uma história bonita na dor”, destaca.

Apesar de ser da área de Direito, o autor lança um olhar crítico por meio do romance. O sistema penitenciário e as políticas de segurança pública não escapam das observações durante a narrativa. “O que no fundo o defensor e o professor querem levar às pessoas é uma visão que ele tem disso tudo, que é um pouco contrária a das pessoas das ruas. Por exemplo, há opiniões populares que consideram que quanto mais prender, melhor; quanto mais encarceramento, melhor; e no fundo, a gente tem um sistema absolutamente injusto que leva para a cadeia a juventude pobre, negra, moradora de favela. Quando não leva para a morte, leva para a cadeia. Esses casos são retratados e pontuados. Tratar desses temas é fazer também uma crítica à sociedade que defende tais ideias. Lidar com isto é difícil para um defensor público, pois este lida diariamente com a miséria humana. É o enfoque da obra”, comenta .

A intimidade com a escrita existe desde a infância de Tiago Abud quando escrevia poesias. Dedicar-se a um romance pela primeira vez foi desafiador. O escritor começou “Entre putas, ratos e juízes” faz seis anos. “No início, achei a linguagem muito jurídica, e, possivelmente, chata. Parei com o processo, mas depois decidi recontar a história de forma leve e popular com o apoio do professor de Direito, Cristiano Fagundes. Suas orientações me fizeram concluir o processo do livro em 30 dias. Finalizada a obra, contatei com a editora e combinamos a publicação”, recorda.

O livro é destinado a quem tem e a quem não tem interesse pelo Direito, foi escrito sem o “jurisdiquês” para que todos tenham acesso. Para Tiago Abud, abordar certos temas no Brasil atual requer uma certa habilidade. “O momento do Brasil é de divisão. Há uma crise de empatia. O livro acaba abordando essa questão. Nós medimos o outro com a nossa régua e só está certo aquele que pensa igual a gente. Não tem havido espaço para diferença de pensamento e de opinião. Quando se fala em Justiça e Sistema Penitenciário, é comum não haver empatia com posições diferentes. Pessoas diferentes acabam sendo aniquiladas. Essa crise de afeto leva à segregação”, reflete.

Para Tiago Abud, as pessoas não conversam mais. Segundo ele, o computador e o telefone viraram escudos. “Há uma crise nas relações humanas, e, portanto, isto também afeta autores e leitores. Viver em sociedade hoje é uma tarefa difícil. É preciso buscar compreender onde a sociedade em sua evolução falhou”. Para o autor de “Entre putas, ratos e juízes”, escrever hoje é um ato de resistência e de heroísmo. “Na verdade, é preciso fazer com que a escrita chegue a todas as pessoas. Nem sempre o público faz eco àquilo que você defende. É preciso quebrar essas barreiras através da arte. A escrita, a literatura são formas de arte”, conclui.