O custo do desperdício

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. comenta aborda o desperdício e o prejuízo que ele causa

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Por Paulo Cassiano Júnior
23 de dezembro de 2018 - 15h14

Foi uma viagem missionária a Betânia do Piauí, em 2016, repetida no ano seguinte, a qual me abriu meus olhos para uma realidade bem distante da minha. Encravada no miolo do sertão nordestino, a cidade apresenta um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do país, segundo a ONU. Lá conheci gente como Seu Didi, que passou a vida comendo arroz duas vezes por ano (“só em festa de casamento”) e conheceu energia elétrica em casa apenas em 2009.

A fé que suporta o calor que racha a terra seca e o sofrimento desenhado nos vincos do rosto sertanejo trouxeram lições de perseverança e resignação para a vida inteira. Mas não foi só: a escassez ostensiva mostrou a necessidade de lidar com mais responsabilidade com os recursos disponíveis e evitar o desperdício.

Para a nossa vergonha, o Brasil ocupa lugar de destaque no “ranking” dos países mais perdulários do mundo. Aproximadamente 35% de toda a produção agrícola vão para o lixo. De acordo com dados do Serviço Social do Comércio (Sesc), a quantidade de alimentos jogados fora diariamente seria suficiente para garantir café da manhã, almoço e jantar para 39 milhões de pessoas.

O desperdício de alimentos não provoca apenas perdas humanitárias. Conforme pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em nível global, há impactos ambientais relevantes com o aumento da produção de lixo e a emissão de 3,3 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa. Além disso, estima-se que a água gasta somente com alimentos descartados seria equivalente ao volume do rio Volga, o mais longo da Europa.

Em relação à água, os dados são alarmantes. De cada 100 litros de água tratada no Brasil, nada menos que 37 são perdidos. Isso representa uma sangria de R$ 10,6 bilhões por ano e equivale a todo o investimento em saneamento básico no país em 2016. Estudos realizados pela ONU indicam que a quantidade de água satisfatória para suprir as necessidades básicas de uma pessoa é de 110 litros por dia. Entretanto, o consumo médio brasileiro é de 166,3 litros por habitante/dia, o que representa uma variação de 51% acima do recomendado.

Infelizmente, a situação não melhora quando a análise recai sobre a energia elétrica. Levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco) mostra que mais de 10% da energia consumida no país é perdida. O desperdício acumulado nos últimos três anos seria suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes por mais de um mês. Das 16 maiores economias do mundo, o Brasil ocupa apenas o penúltimo lugar no “ranking” de eficiência energética.

Mudar de hábitos não é tarefa fácil para ninguém, sobretudo quando se vive na ilusão de que tudo dura para sempre. Ou de que, se se está pagando, que se dane o resto. Porém, mais do que por medida de economia, evitar o desperdício é providência fundamental para a conservação do planeta. E, no fim das contas, ninguém precisa visitar o sertão piauiense para colocar no prato somente o que vai comer, fechar a torneira ao se ensaboar ou apertar o interruptor ao deixar a sala.