Obesidade: problema de todas as idades

'Eu trato com respeito' é tema da campanha de prevenção à doença que se não for tratada abre porta para outras

Saúde
Por Letícia Nunes
16 de outubro de 2018 - 16h47

A obesidade é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo atualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de uma manifestação crônica que tende a piorar com o passar dos anos, caso o paciente não seja submetido a um tratamento adequado e contínuo.

No Brasil, mais de 50% da população tem excesso de peso. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com excesso de peso, sendo mais de 700 milhões, com obesidade. O número de crianças com sobrepeso e obesidade poderá chegar a 75 milhões, caso nada seja feito.

Há dez anos, o dia 11 de outubro é reservado para tratar do assunto. Especialistas de todo o país se envolvem na campanha da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, que em 2018 tem como tema “Eu trato com respeito”.

A obesidade aumenta o risco de muitas doenças como diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia, causando aumento de eventos cardiovasculares, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral. Doenças respiratórias tornam-se mais frequentes, um exemplo é a apneia do sono. Além de problemas no fígado, nas articulações, o desenvolvimento do câncer e o surgimento de doenças psiquiátricas como depressão e ansiedade. O sistema imunológico também pode ser afetado, com maior risco de infecções virais e bacterianas.

Médica endocrinologista Patrícia Peixoto (Foto: Silvana Rust)

A endocrinologista, Dra. Patrícia Peixoto, comenta a dificuldade de tratar o problema. “O conceito simplista de que o tratamento se baseia somente em comer menos e gastar mais vem sendo derrubado. Ele ignora fatores diversos por trás desta doença, que são genéticos, fisiológicos, comportamentais, sociais, econômicos e ambientais. Então, em diferentes pacientes eles terão diferentes papéis. E diferentes dinâmicas se traduzem em diferentes desafios para reverter o problema. Um tratamento que pode funcionar para um paciente pode fazer muito pouco efeito em outro. Por isso é desafiante. Para nos auxiliar, em alguns anos, poderemos usar ferramentas que alguns pesquisadores vêm desenvolvendo juntos no NIH ADOPT project, uma plataforma para publicação de estudos científicos”, explica. No mês em que se pensa na prevenção da doença, os pais devem estar atentos à saúde dos seus filhos, principalmente a longo prazo. Segundo a médica, eles devem se conscientizar da importância uma alimentação saudável desde cedo, com a oportunidade da criança conhecer novos sabores e evitar os produtos processados. Também colaboram na prevenção a atividade física diária, o limite ao uso de eletrônicos e cuidados com a qualidade do sono dos pequenos. “Deve ter atenção diária também a forma como os filhos lidam com o ato de comer. A genética também é um dos fatores da obesidade mas mudar os hábitos diários da criança é importante para prevenir e tratar a obesidade. Quando os pais são obesos é fundamental que eles se motivem a se tratar. Quando uma pessoa obesa começa o tratamento, criança ou adulto, a participação da família faz toda a diferença”, ressalta. Na gravidez, pode-se planejar a gestação no sentido de tratar o sobrepeso materno e paterno antes do bebê ser gerado. Depois, fazer um acompanhamento nutricional adequado, que permita o bom desenvolvimento fetal e o bem estar materno. O estímulo ao parto natural e também à amamentação também são importantes. “A obesidade é uma doença crônica e precisa ser vista como tal. Se o paciente tem um índice de massa corporal maior ou igual a 30, ou maior ou igual a 27 com doenças causadas pelo excesso de peso, já há indicação de medicamentos. É importante frisar que estes nunca podem ser o principal no tratamento. Por outro lado, não devem ser mal vistos. Hoje, temos à disposição medicamentos seguros e que permitem auxiliar o paciente no processo de emagrecimento. E
outros estão em estudo, com resultados animadores. O importante é que se faça a escolha do medicamento correto, com o seguimento adequado e não deixando de lado o papel fundamental das mudanças alimentares e de hábitos diários. O estigma que o paciente obeso sofre também precisa ser  combatido. Oferecer ao paciente um ambiente de acolhimento e apoio é papel dos especialistas que cuidam dele, idealmente com uma equipe  multidisciplinar que conte com endocrinologista, nutricionista, psicóloga e educador físico e do cirurgião bariátrico, quando há está indicação”,  esclarece Dra. Patrícia.

Carlos Gicovate, cirurgião (Foto: Silvana Rust)

Cirurgia Bariátrica: uma mudança de vida

Quando todas as opções se esgotam e não há sucesso duradouro na perda de peso, a cirurgia bariátrica vem como uma alternativa para o tratamento
da obesidade. O cirurgião bariátrico, Dr. Carlos Gicovate, afirma que quem procura o procedimento geralmente já tentou emagrecer, mas não obteve
sucesso. “A cirurgia bariátrica não é indicada para qualquer paciente que se encontra acima do peso. É a última opção.Para começar a avaliação, o indivíduo tem que ter um IMC de no mínimo 35. Deve-se ainda levar em consideração a idade daquele paciente. Quando uma pessoa precisa fazer a cirurgia, ela tem que estar disposta a mudar de vida, tendo uma rotina mais saudável e praticando exercícios físicos. Com a redução do estômago, o indivíduo vai precisar comer pouco e deve ingerir alimentos saudáveis. A cirurgia ajuda com 10%, os 90% dependem do paciente. A obesidade é uma epidemia mundial. Uma doença da vida moderna, onde há uma fatura de alimentos e por isso devemos ter cuidado e estar em alerta”, esclarece.