O país que precisa de mitos

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. faz uma análise sobre a democracia e o período eleitoral

Opinião
Por Paulo Cassiano Júnior
23 de setembro de 2018 - 12h06

Desde os primórdios, o ser humano sempre buscou explicação para a realidade. Na Grécia antiga, quando o conhecimento era transmitido basicamente por tradição oral, os narradores (rapsodos) valiam-se de relatos fantasiosos que pretendiam elucidar ou justificar a origem do mundo, a condição do homem, o estado das coisas e os fenômenos naturais. Essa ferramenta simbólica utilizada para disseminar o conhecimento era o mito.

Uma das características da narrativa mítica era a presença do elemento misterioso. Como os rapsodos eram pessoas tidas como divinamente inspiradas e, portanto, dignas de toda confiança, seus ouvintes não encontravam incongruências em suas histórias fantásticas e sagradas. Questionar o mito implicava contradizer os próprios deuses. Ancorado na fé, o mito predominou até que alguns começaram a lançar sobre ele um olhar crítico, problematizador e radical. Nascia aí a filosofia.

Apesar de a narrativa mítica ter sido superada pelo pensamento filosófico, o mito sobreviveu aos tempos e agregou hoje uma outra acepção. Popularmente, o mito moderno designa toda pessoa detentora de poderes e habilidades superiores, capaz de alcançar feitos extraordinários. Nesse sentido, é mito quem saca uma ideia genial para resolver um problema complexo. Ou quem lança uma última palavra capaz de encerrar uma discussão travada. O mito é sempre aclamado pela multidão. O mito é encantador, carismático e portador de valores nobres. O mito é a síntese da virtude.

Nos últimos meses, grassam pelas mídias sociais incontáveis vídeos do candidato Jair Bolsonaro, nos quais é ovacionado por aglomerações extasiadas, em aeroportos e outros ambientes, ao coro marcial de “Mito! Mito! Mito!”. Embora não lancem mão do termo, os correligionários de Lula também o reverenciam como tal. Não por acaso uma vigília solidária perdura há meses em frente à superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde o ex-presidente está encarcerado por ordem judicial. O que dizer do juiz Sérgio Moro, guindado à condição de herói nacional por manifestantes de rua em face de sua atuação à frente da operação Lava Jato?

Quem trata homens de carne e osso como mitos precisa fechar os olhos para as limitações que eles apresentam e os erros que eles cometem. Tal como na Grécia antiga, o mito moderno só se sustenta com o ingrediente da fé, inacessível pela razão. Só assim os bolsonaristas ignoram o discurso sectário e antidemocrático de seu candidato. Também por isso os lulistas fingem não ver as evidências de corrupção partidária e enriquecimento pessoal que o ex-presidente protagonizou, atribuindo sua prisão a uma perseguição das elites e da grande mídia. Não por outro motivo os fãs de Sérgio Moro continuam tratando-o como paladino da moralidade, mesmo após o magistrado, proprietário de um imóvel na cidade onde trabalha, ter defendido publicamente a apropriação do auxílio-moradia como complemento de seu salário.

No fundo, a ânsia dos brasileiros por um salvador da pátria expõe a imaturidade da nossa cidadania. Ao erigirmos ídolos sobre quem recairão todas as nossas esperanças de redenção, sentimo-nos confortáveis para darmos descanso a nós mesmos da árdua tarefa diária de construção de uma nação melhor. O país que precisa de mitos revela a fragilidade de sua própria democracia. Nós não necessitamos de líderes messiânicos, mas de instituições fortes. Afinal, no reino dos humanos, todos os mitos possuem pés de barro.