Sem verba, Nepas deixa de receber animais silvestres feridos no Hospital Veterinário da Uenf

O Núcleo de Estudos e Pesquisa em Animais Selvagens (Nepas) não tem mais condições financeiras de arcar com custos de alimentação e medicamentos

Campos
Por Ulli Marques
22 de agosto de 2018 - 10h13

(Foto: Silvana Rust)

O Núcleo de Estudos e Pesquisa em Animais Selvagens (Nepas), que funciona no Hospital Veterinário da UENF, não recebe mais animais feridos a partir desta quarta-feira (22). A informação foi confirmada pelo coordenador do núcleo, professor Leonardo Serafim. Segundo ele, há tempos que o setor não recebe verba do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para aquisição de medicamentos, alimentos e demais materiais, e, neste momento, a situação ficou “fora do controle” e culminou nessa medida emergencial.

Em entrevista ao Jornal Terceira Via, o professor explicou que, bem como ocorre em toda a UENF, o Nepas enfrenta uma grave crise financeira e são os profissionais que atuam no espaço quem mantêm os gastos necessários para dar seguimento aos atendimentos médicos, cirúrgicos, ortopédicos e etc. Ao longo dos anos, o professor Leonardo e demais médicos veterinários residentes e estagiários investem o próprio dinheiro na compra de alimentos e medicamentos. Acontece que os medicamentos têm valores elevados e a alimentação dos animais é bastante diversificada — alguns são carnívoros, outros se alimentam apenas de frutas frescas — e o gasto com esses produtos é dispendioso.

(Foto: Silvana Rust)

O Nepas funciona desde 2005 e recebe diariamente diversos animais da fauna silvestre — como serpentes, gaviões, corujas, tamanduás, cachorro do mato, vários tipos de aves, lobo-guarás, macaco prego, preguiça, etc. — e a maioria deles com graves ferimentos causados por atropelamento e até mesmo por disparos de armas de fogo. No espaço, os médicos veterinários realizam todo o tipo de procedimento e tratamento para que esses animais retornem aos seus habitats. Contudo, muitos sofrem danos irreversíveis e acabam ficando mais tempo no espaço do que o planejado, outros precisam de internação. Com isso, os gastos, que já são altos diante do grande fluxo de animais que passam por ali, ficam ainda maiores para prover todos esses bichos.

Caberia, portanto, ao Inea a responsabilidade de encaminhar esses animais a locais apropriados, mas, além de não oferecerem a verba para a manutenção do Nepas, o órgão também não efetua o deslocamento daqueles que já não precisam de tratamentos médicos e que não podem ser simplesmente deixados à solta.

(Foto: JTV)

“Ao longo desses 13 anos, o único período em que estivemos mais tranquilos em relação à verba foi durante a implementação do Porto do Açu. Foi quando recebemos uma espécie de sobrevida. Mas com a crise financeira e com a consequente queda da demanda nesse empreendimento, as verbas ficaram ainda mais escassas e mantivemos o Nepas simplesmente por amor à profissão e aos animais. Ocorre que agora chegamos a uma situação caótica e não temos mais como continuar atuando da maneira como fazíamos antes”, explicou o professor.

Embora esse número seja bastante variável, em média o Nepas recebe aproximadamente 1500 animais feridos por ano e a burocracia para a realização dos atendimentos médicos é equivalente a esse número. “Os órgãos ambientais parecem não ter noção dessa situação. Somos apenas um pequeno setor de um Hospital Veterinário do interior. Com o meu próprio dinheiro, já levei animais para receber tratamento na Bahia, mas com o salário que recebo hoje, não tenho mais condições. Eu preciso sustentar duas famílias, a minha e a do Nepas, e isso é difícil considerando os vencimentos mensais de um professor brasileiro. Não se trata de má vontade, muito pelo contrário”, declarou Leonardo.

O professor disse ainda que já fez uma série de projetos solicitando verba ao Inea, mas nada aconteceu. O motivo, segundo ele, seria a origem dos animais atendidos no local. “99% desses animais são de vida livre e os órgãos parecem não ter interesse em cuidar deles por não serem domésticos”, disse.

Agora, com a mudança que começa nesta quarta-feira (22), o Nepas receberá apenas “pets exóticos”, ou seja, animais silvestres de propriedade particular. “Assim, o dono desse animal é o responsável pelos custos relativos aos alimentos e aos medicamentos, cabendo a nós, médicos veterinários, apenas os serviços”, explicou o professor.

RESPOSTA INEA

A equipe de reportagem entrou em contato por telefone com o superintendente Regional Baixo Paraíba do Sul do Inea, René Justen, e este informou que, de fato, “a dificuldade é extrema”. Segundo ele, sem o Nepas, não haveria outro local para encaminhar os animais selvagens apreendidos, uma vez que, muitos deles necessitam de atendimentos médico-veterinários antes de retornarem ao habitat ou serem distribuídos a centros especializados fora da região.

“A verdade é que o Inea depende do Nepas. Outro núcleo que poderia realizar esse serviço existe somente na capital e não há condições de encaminharmos esses animais para esse local. A situação é muito crítica”, disse René.

René lembrou ainda que, atualmente, as medidas compensatórias recebidas pelo órgão são referentes apenas à reposição florestal e não a atendimento a animais de vida livre.

Com o intuito de controlar a situação, o superintendente declarou que o Inea tentará estabelecer um convênio com alguma empresa particular a fim de conseguir verbas para auxiliar o Nepas, mas, a princípio, não há garantias.