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Novo alvo de roubos: propriedades rurais

Casos de roubos e furtos em fazendas não param de crescer no Norte do Estado e têm deixado produtores apreensivos pela insegurança

Campos
Por Thiago Gomes
20 de maio de 2018 - 0h01

A violência não é um problema apenas das áreas urbanas e os produtores rurais da região sabem bem disso. A situação não é nova e, de acordo com o Sindicato dos Produtores Rurais de Campos, furtos e assaltos a fazendas e sítios ocorrem com frequência e tem causado prejuízos na região Norte do Estado.

Muitas vezes, elevam o custo da produção, já que parte do material levado é financiado em bancos. Outros tipos de violência, como agressões, sequestro e até assassinato também já foram registrados nestas áreas de produção, geralmente afastadas do perímetro urbano. Em tempos de violência, o perfil de investimentos no campo tem mudado: em vez de apenas maquinários e implementos, o produtor precisa se preocupar em instalar sistema de vigilância e outros artigos do gênero.

De acordo com o presidente do Sindicado dos Produtores Rurais de Campos, Ronaldo Bartolomeu Júnior, ataques de bandidos às propriedades rurais são comuns e os maiores alvos são cabeças de gado. Mas também estão na lista dos bandidos, fiação elétrica e outros materiais para geração de energia, bombas, transformadores, insumos, entre outros. “Até postes os bandidos já levaram”, relatou.

Problema é antigo

Em 15 de janeiro de 2003, o Jornal O Globo revelava em uma de suas matérias de destaque que uma quadrilha especializada em roubo em áreas rurais havia atacado 20 propriedades em Campos em menos de um mês. Entre elas as usinas Outeiro e Santa cruz. Nesta última, roubaram quase todo material de irrigação. Para Bartolomeu, a situação atual é mais grave do que a noticiada há 15 anos pelo jornal. “Recebemos muitos relatos em várias regiões”.

Bartolomeu reconhece, no entanto, que não é costume dos produtores rurais registrar ocorrência dos assaltos, o que, para ele é um erro. “Mesmo que se trate do furto de uma galinha. É necessário registrar para que a polícia saiba do problema e possa atuar”, comentou o presidente do sindicato, que também faz parte do Conselho Municipal de Segurança Pública.

A equipe de reportagem fez contato com a Polícia Militar, que não enviou resposta até o fechamento desta edição.

Investimento em vigilância

O fazendeiro Clodomir Crespo diz que vive apreensivo com tamanha violência no campo. Ele investiu em câmeras de segurança para inibir a ação de criminosos em sua fazenda que fica na localidade de Boa Vista de Sapucaia, em Campos. “Minha propriedade fica na margem da estrada, perto do rio e tem uma grande área descampada, o que pode facilitar esse tipo de crime. Para evitar isso, estou me resguardando. Já instalei 14 câmeras nos acessos e tenho me prevenido como posso. Tenho amigos que já sofreram tortura e posso imaginar o tamanho do trauma que eles carregam. Não desejo isso para ninguém”, falou.

Furto de gado

O crime mais recorrente no campo é o furto de cabeças de gado, segundo os próprios produtores. Marcos Antônio Machado Barbosa, que tem uma propriedade em Retiro, localidade próxima ao lado campista de Barra do Furado, foi alvo de bandidos. Na ação, duas cabeças de gado foram baleadas e morreram. Um prejuízo estimado pelo pecuarista de R$ 3 mil.

“Eles entraram à noite e ninguém viu nada. Só demos conta do crime na manhã seguinte. Muitos produtores dessa região já sofreram com esse tipo de furto”, comentou Marcos Antônio.

Na mesma localidade está a propriedade de Ricardo Abreu, que há seis meses foi invadida durante a noite. O produtor conta que os bandidos abateram uma cabeça de gado. Agora, a área conta com monitoramento por câmeras, investimento que Ricardo foi obrigado a fazer para aumentar a segurança do sítio. “Eles destrincharam o animal no meu pró- prio pasto e deixaram a carcaça no local”.

Evandro Wagner Bastos teve o sítio próximo a São Martinho, na Baixada Campista, invadido duas vezes. Na primeira, há dois anos, levaram quatro cabeças de gado. Na segunda, há cerca de 30 dias, foi a vez do transformador de energia.

Protesto

Os casos frequentes de furto de gado levaram cerca de 70 produtores do Norte Fluminense a organizarem um protesto próximo ao posto de pedágio da Rodovia BR-101, em Serrinha, em Campos, em fevereiro deste ano. O grupo reivindicava a criação de uma Delegacia de Repressão a Crimes Rurais na região.

Transformadores de energia furtados

Por conta do cobre usado em seu composto e do próprio preço no mercado, os transformadores de energia também são visados pelos ladrões, conforme destacou o secretário de Agricultura de Campos, Nildo Cardoso. Ele já teve uma propriedade invadida e os bandidos levaram justamente um transformador. Ainda segundo o secretário, o equipamento usado custa entre R$ 7 mil e R$ 10 mil, o que tem chamado a atenção dos bandidos.

“Geralmente esses transformadores ficam afastados da sede das fazendas, o que facilita o furto. Tem quadrilha que desmonta o transformador e vende as peças, como o cobre, e outros grupos criminosos revendem ele inteiro”, contou o secretário.

Nildo lembra que muitas propriedades ficam vulneráveis por conta da distância do centro urbano. “Essas áreas geralmente são mais afastadas e o efetivo disponível para o policiamento é menor. Quando a polícia chega, os bandidos já foram embora”, comentou.

Homicídio

No dia 3 de maio, o corpo do empresário e produtor rural Carlos Eduardo de Souza Santos, 65 anos, foi encontrado com marcas de tiros no Morro da Ferradura, área afastada do bairro Santa Maria, no município de Conceição de Macabu. Segundo relato da família, a vítima havia sido vista pela última vez em sua fazenda, na mesma cidade, no dia anterior. Produtores de Conceição de Macabu, Quissamã e Macaé também têm sofrido com o problema de furtos e assaltos a propriedades rurais.

Ainda segundo a família de Carlos Eduardo, mais conhecido como Cadu, que morava em Macaé, ele foi à fazenda Santa Maria, na tarde do dia 2, para efetuar o pagamento de funcionários e não foi mais visto. O carro do pecuarista foi localizado às margens da BR-101 pouco antes de encontrarem o corpo e o dinheiro foi levado. O Caso foi registrado na 123ª Delegacia de Polícia (Macaé).

Assalto com reféns

Ainda em janeiro deste ano, no dia 4, um homem foi assaltado e feito refém por quatro bandidos armados. O roubo aconteceu em uma propriedade rural em Campo Limpo, na Baixada Campista. Os ladrões levaram um cofre com documentos, uma quantia em dinheiro e o carro da vítima, um Hyundai I-30. De acordo com a Polícia Militar, a vítima chegava de Pernambuco, no Nordeste do país, quando foi abordada pelos assaltantes na entrada da fazenda. Ainda segundo a PM, o jovem e um funcionário da propriedade foram amarrados e ficaram reféns das 23h de quinta até as 4h da madrugada. O caso foi registrado na 134ª Delegacia de Polícia (Centro).

Agressão

Três residências de uma propriedade rural do interior do município de São Francisco de Itabapoana foram invadidas por bandidos na manhã do dia 19 de janeiro. Moradores foram agredidos e feitos reféns. Segundo a Polícia Militar, seis assaltantes que estavam divididos em dois carros – um deles roubado em Campos – entraram armados nas casas localizadas em Morro Alegre. Ainda de acordo com a PM, os bandidos chegaram e abordaram o funcionário do local. A vítima foi amarrada e amordaçada.

Em uma das casas, o bandido exigia dinheiro e agrediu a moradora com socos e pontapés. Do local, foram levados um videogame, uma TV, joias e R$ 2 mil em espécie. No momento que os assaltantes cometiam o crime, o funcionário das propriedades conseguiu se soltar e pedir ajuda. A equipe da Polícia Militar chegou ao local, o que assustou a quadrilha. Todos fugiram por uma área de mata, deixando os carros e os produtos roubados. Horas depois, um deles foi detido pelos policiais. O caso foi registrado na 147ª Delegacia de Polícia de São Francisco de Itabapoana.