O ódio nosso de cada dia

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. analisa a discussão política nas redes sociais.

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Por Paulo Cassiano Júnior
29 de outubro de 2018 - 9h56

Para quem cresceu ouvindo que política, futebol e religião não se discutem, nada mais perigoso do que se posicionar no atual cenário político brasileiro.

O país está rachado; e os nervos, à flor da pele. O que se viu durante a campanha eleitoral beirou a barbárie. Há incontáveis casos de rupturas de amizades, demissões de funcionários, crises conjugais e dissoluções de sociedades, tudo motivado por divergências políticas. As fraturas nos relacionamentos foram expostas em todas as esferas: na família, no trabalho e até nas igrejas. Porém, nada se compara ao que aconteceu nas redes sociais.

Quem acompanhou a discussão política no “Facebook”, no “Instagram” e nos grupos de “WhatsApp” com um mínimo de isenção deve ter se escandalizado com a selvageria, o desrespeito e a falta de educação do brasileiro (se você não se horrorizou, preocupe-se). Digo discussão política por mera permissão retórica, pois não se pode chamar de discussão a pancadaria verbal vazia de argumentos, nem de política o que descamba para agressões pessoais.

Nas mídias sociais, as pessoas sentem-se à vontade para dizer que a facada em Bolsonaro não foi profunda o suficiente, ou que os nordestinos deveriam ser enviados com passagem só de ida para a Conchinchina (para não mencionar outros lugares bem menos nobres), ou que a ditadura militar precisaria voltar para eliminar os “vermes”, estando enquadrado na categoria de verme todo o que comete o grave delito de pensar de forma diferente. Tudo – claro – em nome da paz, da moral e dos bons costumes. A campanha eleitoral derrubou o mito de que o brasileiro é um povo pacífico e cordial e evidenciou que os nossos corações são impregnados de intolerância e maldade. Isso deveria nos envergonhar.

O universo virtual é um ambiente mais propício à vazão da raiva e da violência porque o internauta se sente protegido pela distância e pelo anonimato e confiante em que ficará impune por qualquer mensagem que publique, por mais absurda que seja. Nas redes sociais, a hostilidade que não pode ser expressa nas relações presenciais ganha dimensão pública e é tanto mais validada quanto mais aplausos recebe de quem com ela se identifica.

No fundo, essas manifestações políticas objetivam apenas cristalizar as posições pessoais e eliminar o oponente, o que, paradoxalmente, equivale à negação da própria política. Deveríamos ficar particularmente felizes com a oportunidade de debater com quem discorda de nós, pois é nessa dialética que podemos confrontar as ideias, revisitar os nossos conceitos e até mudar de opinião (sim, isso é possível). O ódio nosso de cada dia nos ofusca a visão para a importância que o outro tem para o nosso próprio amadurecimento.

Agora que a fumaça branca já subiu no Planalto e o novo presidente é conhecido, espera-se que os ânimos dissidentes arrefeçam e um pacto seja estabelecido em favor da convivência civilizada. As opiniões políticas divergentes não reduzem os brasileiros a “petralhas” ou “coxinhas”. É indispensável superar a vingança dos vitoriosos e a mágoa dos derrotados. O Brasil agradece.