É pra ontem!

Neste artigo, Paulo Cassiano Jr. aborda a rotina acelerada da vida moderna

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Por Paulo Cassiano Júnior
19 de agosto de 2018 - 12h40

Da mãe para o filho, do chefe para o subordinado, do patrão para o empregado, a expressão tem sido cada vez mais comum: “É pra ontem!”.

Frequentemente, acordamos de pronto com uma lista de tarefas a cumprir e problemas a resolver (incluindo pendências do dia anterior), o que nos dá a nítida sensação de que, apesar de o dia ter apenas começado, já estamos atrasados. E – claro –, se estamos atrasados, precisamos correr.

Assim seguem os nossos dias: corridos. Uma correria só! É marcar o exame que o médico prescreveu, buscar o filho na aula de inglês, levar o carro para a revisão, deixar o currículo para outra entrevista de emprego, conferir a promoção que vai só até hoje… Ufa (e nem deu meio-dia de segunda-feira)! Corremos de um lado para o outro, mais parecidos com um equilibrista girando pratos nas varetas, suando a camisa para não deixar nenhum deles cair.

Ainda assim, quando nos sobra um tempo e não sabemos de imediato o que fazer para ocupá-lo, sentimo-nos até culpados, como se o ócio momentâneo fosse um delito.

Simbolicamente, o “É pra ontem!” marca o tom de urgência que temos atribuído a inúmeras situações do nosso dia a dia. A massificação da tecnologia, a intensidade do fluxo das informações, a competitividade do mercado de trabalho e o acirramento das exigências de consumo tornaram o ritmo da vida moderna aceleradíssimo. Nesse contexto, que valor temos dado ao nosso tempo?

Enquanto vivemos sob a influência da doutrina do “time is money”, somos induzidos a fazer máximo esforço para tornar o nosso tempo “útil” e “produtivo”. Para sustentar sua própria dinâmica, o sistema capitalista engendra falsas necessidades que, com a sagacidade própria da publicidade, são vendidas como bens e serviços indispensáveis à nossa felicidade. Para isso precisamos continuar correndo, pois nada nos pode faltar.

Essa sistemática falta de tempo expõe a incapacidade de organizarmos nossa rotina e de estabelecermos nossas prioridades de acordo com o que realmente tem valor. É hora de voltarmos à antiga lição do poeta, cada vez mais atual, para que o mais simples seja visto como o mais importante (mas nos deram espelhos, e vemos um mundo doente).

No fundo, quando nos envolvemos com atividades em excesso, temos a oportunidade de ver que nem todas são realmente essenciais; se temos corrido tanto para fazer tantas coisas, certamente temos feito mal muitas delas.

Talvez não seja por acaso que a ideologia do “É pra ontem!” obstrua a nossa capacidade de reflexão e nos converta em autômatos. Afinal, o assoberbamento do nosso tempo nos subtrai os direitos de contemplar a vida, de investirmos em nossos relacionamentos pessoais e de buscarmos a presença de Deus. Como consequência disso, tornamo-nos pessoas com o comportamento robotizado, sobrecarregadas, impacientes e superficiais.

Como não podemos controlar o amanhã, que o ontem seja deixado para trás, porquanto o hoje já se incumbe de trazer consigo os seus próprios fardos. Pois, como disse Sêneca, “não é que tenhamos pouco tempo, mas que o perdemos muito”.