Hilda Hilst, a homenageada da festa

por Eliana Garcia

BLOG
Por Eliana Garcia
5 de agosto de 2018 - 0h01

A Festa Internacional de Literatura de Paraty (FLIP)  que terminou no último domingo ( 25 a 29/07 ) – considerado principal evento internacional dedicado à   literatura no Brasil e na América do Sul – homenageou a poeta, dramaturga e ficcionista, Hilda Hilst que só começou a fazer sucesso de público após sua morte em 2004. Ela nasceu em Jaú, no interior do estado de São Paulo no ano de 1930. Única filha de um fazendeiro poeta e jornalista, Apolônio Hilst, que teve sérios problemas mentais e de sua mulher Bedecilda Vaz Cardoso.

Hilda escreveu intensamente sobre temas como amor, morte, sexo, transcendência e Deus. Ela sempre foi tachada de escritora difícil, estranha, hermética, porém instigante.

A literatura de Hilda causa incômodos,  faz refletir e não se enquadra em certas expectativas do que se deve e do que não se deve ser arte, como afirmou, em recente entrevista, Josélia Aguiar, curadora da FLIP.  Haja vista uma de suas últimas publicações, Caderno Rosa de Lori Lamby que, em forma de diário, relata a história de uma menina que incentivada por sua mãe passa a se prostituir. Hilda enfrentou os paradigmas do seu tempo e escrevia sem pudores, o que, nem sempre era bem-vindo. Mas fazia refletir, sem dúvida.

A atriz Fernanda Montenegro, na abertura da festa literária, leu trechos de crônicas e de poemas da escritora, arrancando muitos aplausos e fazendo rir a platéia, ao ler trechos como estes: “ Quero ser lida com profundidade, e não como distração, porque não leio os outros para me distrair, mas para compreender, para me comunicar, não quero ser distraída” e, ainda parte da crônica do livro A obscena senhora D: “Gente, eu já estou uma fúria e para ficar mais calma,  proponho algumas coisas mais sutis, para o Esquadrão Geriátrico de Extermínio, a sigla óbvia EGE. Arregimentaríamos várias senhoras da terceira idade, eu inclusive, lógico, e com nossas bengalinhas em ponta, uma ponta-estilete besuntada de curare ( alguns jovens recrutas amigos viajariam até os Txucarramãe ou os kranhacarore para consegui-lo) nos comícios, nos palanques, nas Câmaras, no Senado, espetaríamos as perniciosas nádegas (…)desses vilões, nós, velhinhas misturadas às massas e assim, ninguém nos notaria, como ninguém nota a velhice.” A atriz, do alto dos seus 88 anos,  após ler outros  textos da homenageada, terminou sua apresentação dizendo: “ Maravilhosa, Hilda Hilst!  Inesgotável Hilda Hilst! Amada Hilda Hilst!”

Para finalizar, os últimos versos de um dos sonetos mais conhecidos da escritora responsável por belíssimos registros líricos da poesia nacional da metade do século XX. Seu primeiro livro de poesias, Presságio, foi publicado em 1950 e seguiram-se muitos outros. No momento, quase toda sua obra está sendo relançada o que aproximará, principalmente, agora, após a FLIP,  a autora dos leitores.

 

Aflição de ser água em meio à terra

E ter a face conturbada e móvel

E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se ausenta ou se te espera

Aflição de te amar, se te comove

E sendo água, amor, querer ser terra.

( Hilda Hilst –“ Exercícios “- Sonetos que não são, p. 222, 223)