O menino de Dona Francisca

O Brasil é o país que mais mata e agride lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no mundo

Opinião
Por Paulo Cassiano Júnior
22 de julho de 2018 - 10h22

(Foto: i44 News)

Por PAULO CASSIANO JÚNIOR*

Se pudesse, ela eliminaria aquele dia da sua história. Parecia um pesadelo, mas era realidade. Cruel e implacável. “Fiquei muito desesperada, chorando e perguntado para Deus o que tinha acontecido. O que foi que esse menino fez, meu Deus?!”. O drama em tom de desabafo ecoou de Francisca Ferreira de Vasconcelos, 75 anos, uma mulher que, além do embargo na voz, carrega na face os vincos da dor e do inconformismo, pois o menino, agora morto, era seu.
Nas ruas de Fortaleza, o menino de dona Francisca, batizado Antônio Cleilson Ferreira de Vasconcelos, adotara Dandara dos Santos como nome social mais ajustado à sua condição de travesti.

No dia 15 de fevereiro do ano passado, Dandara foi brutalmente assassinada, à luz do dia, na capital cearense. Oito adultos e quatro menores, todos do sexo masculino, foram identificados pela polícia como envolvidos na ação. Enquanto era xingada e humilhada, Dandara apanhava. E apanhou muito: em revezamento, um chutava, outro esmurrava, um terceiro dava com um pau em sua cabeça. Tentando enxugar o sangue que escorria do rosto com um pedaço de pano, não teve forças para atender à ordem de se levantar. A essa altura, seu olhar era uma visível conjunção de medo e clamor por misericórdia – não atendido. Debilitado pelas sevícias, o corpo franzino da travesti, portadora de HIV, foi carregado por seus algozes em um carrinho de mão até o local onde uma pedrada no crânio e um disparo de arma de fogo finalmente encerraram o suplício da vítima.

O delito foi desvendado porque parte do linchamento foi filmada pelos próprios torturadores, e o vídeo acabou “viralizando” nas redes para consumo de uma sociedade sedenta de espetáculo. Não fosse tal casualidade, esse provavelmente seria apenas mais um dentre os 445 casos de homicídios cometidos no país contra a população LGBT, em 2017, motivados por homofobia, dados que representam um aumento de 30% dessa nefasta estatística em relação ao ano anterior.

O Brasil é o país que mais mata e agride lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no mundo e, lamentavelmente, não tem se empenhado para deixar essa desonrosa posição. Projetos de lei contra a homofobia não avançam no Congresso Nacional. Por falta de políticas assertivas das secretarias de segurança pública, a coleta de dados relativa a esses crimes ainda é precária. A discussão sobre direitos elementares da comunidade LGBT ainda é embaraçada por tabus morais e religiosos, o que acaba reforçando o preconceito contra essas minorias e a sua marginalização. Para piorar, a impunidade que estimula a delinquência é alimentada pela ineficiência das polícias na investigação criminal. Em suma, é um caos!

“O que foi que esse menino fez, meu Deus?!”. Nada. Precisamos dizer a dona Francisca que o seu menino não fez nada. Apenas um dia decidiu deixar o cabelo crescer, passou batom nos lábios, tomou hormônio feminino e trocou a cueca por uma calcinha. Quem fez fomos nós, que criamos uma sociedade extremamente violenta, que não confere valor à vida humana, que não respeita as diferenças e que mata e aceita a morte por motivos estúpidos.
Na verdade, a única virtude do vídeo do espancamento coletivo de Dandara é a de escancarar para a sociedade que a cor do sangue que vertia de suas feridas não era as do arco-íris, mas igualzinha à do meu e à do seu.

* Paulo Cassiano Júnior é delegado da Polícia Federal em Campos