Qual foi o último livro que você leu?

Neste artigo, Paulo Cassiano Júnior discute a importância do hábito da leitura

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Por Paulo Cassiano Júnior
8 de julho de 2018 - 13h26

Como se sabe, todos os anos as praias de Santa Catarina são invadidas por turistas argentinos na alta temporada. No verão de 2015, quando ainda residia em Florianópolis, viajei pelo litoral do estado, e uma cena era constante: qualquer que fosse a praia, lá estavam os “hermanos” espalhados pela areia com o rosto enterrado em um livro.

Naquele cenário de mistura e de convivência plural, chamou a minha atenção que o costume dos argentinos contrastava com a conduta dos brasileiros, totalmente distraídos com diversos interesses. A partir daí, passei a observar mais atentamente o comportamento das pessoas em outros contextos sociais e verifiquei que a baixa atração tupiniquim pela leitura não se limita ao ambiente da praia.

Nesse sentido, a última edição de Retratos da Leitura no Brasil (2016), a mais completa pesquisa já realizada sobre o assunto, extraiu conclusões alarmantes sobre o perfil e os hábitos dos brasileiros em relação à leitura.

De acordo com o estudo, os brasileiros leem, por vontade própria, em média, menos de três livros por ano (completos ou em parte). Quatro a cada dez entrevistados disseram que não gostam de ler ou não têm paciência para a leitura. Nada menos que 30% nunca compraram um livro sequer! Quando a questão é o que se gosta de fazer no tempo livre, a leitura ficou em 10º lugar. Para piorar, 23% dos brasileiros declararam que não gostaria de ter lido mais.

Outra enquete, realizada pela Fecomércio, em 2015, sobre os nossos hábitos culturais, revelou que sete a cada dez brasileiros não leram um único livro no ano anterior. Um espanto!

Há quem relacione esse menosprezo pela leitura a aspectos culturais do país, como a intensidade da linguagem oral, a escolarização tardia da população e a preferência por outras mídias, como o rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet.

Tamanho desinteresse deveria despertar uma reflexão profunda na sociedade. Afinal, é incontroverso que o acesso à leitura é fundamental para o progresso cognitivo e intelectual do indivíduo. O livro transporta o leitor para outros mundos e realidades e desperta sua capacidade de abstração e seu senso crítico. Quem lê enriquece vocabulário, constrói argumentos e forma opinião. Crianças que mantêm contato com livros desde a primeira infância desenvolvem mais facilmente a criatividade, a imaginação e a curiosidade, além de interagirem melhor com o meio social. A rotina da leitura expande a habilidade de concentração e de memorização.

Entre os especialistas, existe consenso de que a superação desse problema dependerá do engajamento conjunto do Estado, da escola e das famílias. Cabe ao governo implementar políticas públicas de incentivo à leitura e ampliar o número de bibliotecas comunitárias. A escola precisa atualizar sua grade curricular e modernizar sua matriz pedagógica, pois a linguagem, as expectativas e as motivações do aluno do século XXI mudaram. Porém, a principal chave para essa virada talvez esteja em casa: uma nova geração de leitores é formada a partir de estímulos familiares. Pais que cultivam o hábito de ler e criam uma atmosfera de encorajamento à leitura em seus lares desfazem a falsa ideia de que a literatura não passa de uma obrigação escolar e investem diretamente na qualidade de vida de seus filhos.