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Ronaldo Sobral fala das dificuldades e do prazer de manter a livraria mais antiga do pais com 173 anos

Campos
Por Redação
19 de junho de 2017 - 0h01

POR ALOYSIO BALBI

compra-de-material-escolar-no-o-livro-verde-ronaldo-silvana-rust-17Ele, segundo os amigos de infância, tinha tudo para dar errado. Quem apostou no improvável ganhou. Ronaldo Sobral um jovem rebelde como todos de sua geração se transformou em um empresário com a missão de cuidar de “Ao Livro Verde”, a livraria mais antiga do país, que no último dia 13, completou 173 anos. Nesta entrevista ele falou sobre a dedicação ao trabalho, a aventura de ter morado em um saveiro no Rio Paraíba e de como chegar bem fisicamente aos 70 anos.  Também falou sobre a relação da livraria com José Candido de Carvalho e também do encontro de intelectuais que batem ponto quase que diariamente no “Café João Sobral”. Afirma que a livraria não é dele e sim um patrimônio cultural dos campistas, lembrando que o jornalista Roberto Marinho escreveu que ela deveria ser tratada como um patrimônio do país, sendo um exemplo de resistência.

Sua livraria acaba de receber mais uma homenagem pelos 173 anos, desta vez pela Câmara dos Vereadores de Campos. Você está colecionando homenagens?
Primeiramente não sou eu que as mereço e sim a livraria pelo fato de ser a mais antiga do país. Mas posso dizer que a gente se sente muito honrado com isso. No mês passado houve homenagem também na Academia
Brasileira de Letras, não? Não foi bem uma homenagem. A filha de José Candido de Carvalho lançou um livro inédito e eu tinha um postal do próprio escritor enviado de Lisboa para o meu pai, João Sobral, falando deste livro que ele não editou em vida. Estive na ABL e levei o postal no dia do lançamento do livro e houve um reconhecimento de todos.

Mas antes teve outra?
Há quase 10 anos, durante um Chá dos Imortais. Na verdade a gente queria homenagear a Academia pelos seus 100 anos e percebemos que a livraria era mais antiga do que a própria ABL. O resultado é que os papéis foram invertidos e a ABL acabou homenageando a livraria.

E essa história de que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea com uma pena comprada em “Ao Livro Verde?” É verdade isso?
Isso foi um maluco gozador que, pelo fato de José do Patrocínio ser de Campos e ligado à princesa, inventou essa história. Quando eu falo para esse doido sobre isso ele me diz na maior cara de pau “Quem vai desmentir?”. Mas é uma brincadeira.

A Livraria passou a ser ponto de encontro de intelectuais de Campos. Isso aconteceu naturalmente?
Sim. Começou aos sábados e depois acabou ganhando os outros dias da semana. Era uma coisa natural principalmente depois que criamos o “Café João Sobral”. As pessoas iam comprar livros e se encontravam.

E quem são, os de carteirinha?
São muitos e não gostaria de omitir nomes, mas vou citar dois que pode representar bem os demais: o juiz aposentado Edmundo Machado e nosso eterno imortal Fernando da Silveira.

Tomam café e contam histórias?

Essa combinação mesma. Tudo é muito engraçado. Eles comentam os fatos de outra maneira com um outro olhar, com a inteligência de cada um. O bom humor realmente impera nesses encontros.

Ronaldo, dizem que você foi um jovem que tinha tudo para dar errado, mas acabou dando certo?
Rsrs… A minha geração se notabilizou pela rebeldia, mas os tempos mudam, a vida muda e as pessoas mudam. Existe muito exagero nisso. Assim como a gente exagera com os outros. Posso resumir que hoje
sou pai, avó. Creio que cheguei bem aos 70 anos e me dedico integralmente à livraria.

Você chegou a morar em um saveiro no Rio Paraíba?
Sim. Eu sempre gostei de náutica. Comprei esse saveiro e nele eu ia para Atafona e voltava. Como era um barco confortável com cozinha, quarto, acabei morando um pouco nele. Hoje prefiro o conforto, embora modesto, do meu apartamento.

E os escritores de Campos?
Você sabe que temos uma preocupação imensa com isso. Apoiamos integralmente os escritores de Campos. Temos uma parte da livraria somente com títulos de escritores campistas. Achamos isso da maior importância. Duas coisas projetaram muito a livraria: a idade, obviamente, e o fato do maior escritor de Campos, José Candido de Carvalho, ter ambientado o seu principal romance “O Coronel e o Lobisomem” na livraria, onde o coronel tinha o seu escritório.

É fato que já quiseram fazer um sistema de franquia da livraria?
Sim. Um grupo de São Paulo. Não é uma ideia que foi sepultada, mas tenho que admitir que está parada. Isso não deixa de ser um orgulho pra gente.

Falando um pouco de Ronaldo Sobral. Você continua um atleta?
Não olímpico (rsrs). Mas diariamente faço, ou quase sempre, o chamado zerão, do Paraíba, passando pela ponte da Lapa e pela General Dutra caminhando. E, quando posso, nado dois mil metros por dia. Não chega a ser coisa de atleta.

Soube que você sente uma certa tristeza quando não vê oficialmente a livraria no roteiro oficial da cidade?
Parece que este problema foi resolvido, mas estávamos de fora até pouco tempo. O que o campista tem que entender é que a livraria não é minha. A livraria é de Campos, é um patrimônio cultural de Campos. Manter essa loja aberta com funcionários aqui com mais de 50 anos de casa não é uma tarefa fácil, principalmente neste momento de crise.

Mas, pelo tempo que tem, a livraria viu todas as crises passar?
Sim. Viu crises, viu guerras, tragédias, viu de tudo nesses 173 anos. Exatamente por isso que acho que é um patrimônio cultural forte de Campos, embora seja uma empresa privada. Há quem diga que é um patrimônio cultural do país.

Quem disse, por exemplo?
O jornalista Roberto Marinho escreveu um editorial na primeira página do “O Globo” falando que “Ao livro Verde”, que na época completava 150 anos, era um exemplo de resistência. Esse artigo está aqui na parede, pendurado. Acho que define tudo.