Morto-vivo de Campos é procurado por TV holandesa

Conheça a incrível história de um campista que levantou da cova do Cemitério do Caju e caminhou até o HFM

Campos
Por Redação
11 de janeiro de 2017 - 18h22
morto-vivo

Foto: Roberto Jóia – 29/08/2001

Depois de uma emissora de televisão chinesa, agora é uma holandesa que decide desenterrar e reviver a história do campista Pedro da Silva Corrêa, vivida ou quase morta em 28 de agosto de 2001, quando tinha 43 anos.

A história, inacreditável na época, rodopiou pelo Brasil e pelo mundo, chegando a ser capa do mais influente jornal norte-americano, o New York Times. Pedro da Silva Corrêa era então ajudante de caminhoneiro. Naquele dia viveu uma madrugada de terror e provocou uma manhã de pânico no Cemitério do Caju, em Campos, ao se levantar, cerca de 13 horas depois, da cova onde fora enterrado por volta das 21h de segunda-feira.

Com o rosto desfigurado por dois tiros na cabeça, Pedro gritava por ajuda, provocando correria entre todos os que estavam naquela parte do cemitério visitando túmulos de parentes. Sem conseguir qualquer ajuda – ninguém se arriscou a se aproximar do homem, considerado um morto-vivo por quem estava no cemitério – Pedro caminhou um quilômetro até o Hospital Ferreira Machado.

Na recepção da emergência, contou o seu caso e os atendentes, perplexos, não sabiam se chamavam um clínico ou um psiquiatra. Em seguida, ele foi examinado pelos médicos e ficou constatado que levara dois tiros: um no queixo, que atravessou o nariz, e outro na parte esquerda do crânio, onde a bala ainda está alojada. PMs que estavam no hospital foram ao cemitério e constaram que Pedro falava a verdade: o homem fora enterrado numa cova rasa na parte dos fundos do cemitério. Ele contou no hospital que cinco homens o agrediram e o levaram para o local, entrando pela parte dos fundos. Ao lado de uma cova semiaberta – com menos de meio metro de profundidade – os criminosos o atingiram com dois tiros. Pedro decidiu fingir-se de morto e os bandidos então jogaram terra sobre ele e foram embora.

A vítima contou ainda que conseguiu respirar porque a quantidade de terra jogada sobre ele foi pequena. — Empurrei o corpo para cima e coloquei parte do meu rosto para fora. Decidi ficar imóvel, pois poderia estar sendo observado por ele. Devo ter desmaiado. Pela manhã, acordei e decidi me levantar – contou o ajudante de caminhoneiro, na época que disse não saber o motivo da violência. Para a polícia, Pedro pode ter sido vítima de uma briga entre quadrilhas de traficantes.

Ele mora num bairro, o Parque Prazeres, onde o tráfico de drogas é forte e estava em outra área dominada por traficantes rivais, das Favelas da Baleeira e Oriente. Segundo um policial, o ajudante de caminhoneiro deve ter sido confundido com alguém que o grupo estava procurando para matar. O médico Luís Cláudio Manhães, o primeiro a atender Pedro no Ferreira Machado, disse que seu estado era grave, pois existia uma bala, possivelmente de calibre 38, alojada no lado esquerdo do crânio.

Ele foi submetido a uma tomografia computadorizada por neurocirurgiões para saber como fariam a cirurgia para extrair a bala. Pedro também teve hematomas no corpo e perdeu dois dentes. Os médicos também constataram uma certa confusão mental, o que é considerado natural para quem está com uma bala na cabeça. No Cemitério do Caju, tentou-se localizar a cova onde ele disse ter passado 13 horas enterrado. A parte dos fundos tem várias covas rasas.

Um funcionário que não quis se identificar disse que havia sangue misturado com terra numa cova. Pedro fez a cirurgia e extraiu a bala. Logo em seguida entrou para o serviço de Proteção a testemunhas e mudou-se com a famílias para o Rio de Janeiro. Um ano depois teria ido para o Norte do país. Fato é que ninguém consegue encontrá-lo. Um agente do serviço de proteção a testemunhas disse que ele só será encontrado se ele quiser. Fato é que não se sabe se Pedro está hoje, passados tanto tempo, morto ou vivo. Isso nem a televisão chinesa nem a holandesa conseguiram descobrir.

 

Cemitério é depósito de armas e drogas
Por causa da proximidade do Cemitério do Caju com a Baleeira, é comum os traficantes da comunidade utilizarem os túmulos como esconderijo de drogas, armas e munição. Em maio de 2016, 26 munições de metralhadora foram encontradas pela Polícia Militar em um dos túmulos. Essas munições, de uso restrito, são capazes de atingir veículos blindados e até helicópteros. Na ocasião também foram apreendidos 93 sacolés de cocaína e uma balança de precisão. Em julho de 2016, a Polícia Militar encontrou em um dos túmulos 25 tabletes de maconha, que pesavam aproximadamente 15 quilos, quatro balanças de precisão e material para embalar drogas. Com a apreensão, os policiais calcularam prejuízo para o tráfico de R$ 30 mil. wDias depois, foram apreendidas 915 buchas de maconha, um tablete de cerca de um quilo da mesma droga e 527 sacolés de cocaína, o que representou uma perda estimada em R$ 15 mil para o tráfico. Com a chegada dos policiais, os traficantes fugiram e deixaram as drogas para trás. Uma das maiores apreensões de drogas no Cemitério do Caju aconteceu em janeiro de 2012, quando mais de 20 quilos de cocaína pura, além de 4.200 sacolés da droga e cerca de 800 trouxinhas de maconha foram localizadas em quatro túmulos. A Polícia Militar chegou ao local após uma denúncia anônima e ninguém foi preso.