Rafael Diniz: comando da cidade pode ser presente de grego

Rosinha Garotinho deixa para o prefeito eleito um pacote de problemas

Campos
Por Marcos Curvello
25 de dezembro de 2016 - 9h00

No próximo dia 1º de janeiro, o prefeito eleito Rafael Diniz (PPS) toma posse do cargo. A oportunidade de realizar um sonho antigo e seguir os passos do avô, Zezé Barbosa, pode ser visto como um presente, que chega poucos dias depois do Natal. Mas, uma breve olhada na situação de Campos mostra que o comando do município pode ser um presente de grego. Com a cidade literalmente no buraco — sejam os das ruas e calçadas ou o do orçamento futuro comprometido e das alardeadas dívidas previdenciárias —, a gestão exigirá jogo de cintura.

Os problemas são muitos e vão da infraestrutura à, principalmente, Saúde. Nas ruas, os semáforos não funcionam e deixam o trânsito caótico em avenidas e ruas importantes da cidade, como a 28 de Março, a Beira Valão e a Arthur Bernardes. Motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres se arriscam em meio ao fluxo irregular de veículos sem que haja pelo menos um Guarda Civil para ordenar o tráfego. O problema é recorrente e, quando acontece, raramente tem pronta resolução, se estendendo durante dias.

Não bastassem não funcionarem, os semáforos também caem. No último dia 8, um poste que sustentava um sinal de trânsito no cruzamento da Rua dos Goitacazes (antiga Rua do Gás) com a Avenida Arthur Bernardes, no IPS, tombou. A estrutura, que apresentava diversos pontos de ferrugem, foi comprometida pela falta de manutenção e não resistiu ao peso e ao vento. Não é a primeira vez que acontece.

A falta de um plano de mobilidade urbana torna uma odisseia a simples tarefa de voltar para casa após um dia de trabalho. A falta de sincronia entre os sinais de trânsito transforma a hora do rush em um teste de paciência para quem se aperta em ônibus lotados e passa, às vezes, mais de uma hora em um pare e siga até que consiga deixar as vias principais do município.

E quando chove, tudo piora. A ausência de um sistema de drenagem eficiente, que ajude a compensar a geografia plana do município, transforma qualquer precipitação em transtorno. Entre os últimos dias 14 e 15, fortes chuvas alagaram diversas partes do Centro, incluindo as imediações da Ponte Leonel Brizola. A dificuldade de escoamento fez com que mesmo carros maiores tivessem dificuldades de passar pelo local. As águas invadiram, ainda, as instalações do Shopping Popular Michel Haddad, causando prejuízo para os camelôs, que perderam mercadorias compradas para abastecer o negócio para o Natal.

Mas não é só o trânsito que as chuvas prejudicam. Em novembro, um vídeo divulgado nas redes sociais mostrava alagamento no Centro Cirúrgico do Hospital Ferreira Machado (HFM). Baldes eram usados para conter a água. As infiltrações permitiam que a água caísse de maneira abundante no local, onde há equipamentos.

A falta de material é outro problema de muitas unidades de Saúde do município. O caso mais recente é do Centro de Referência e Tratamento da Criança e do Adolescente (CRTCA), no qual não há agulhas para vacinação, o que pode comprometer o calendário de imunização. No HFM, falta material para cirurgias de prótese de colo de fêmur. Ainda na unidade de Saúde, uma cuidadora de idosos denunciou, recentemente, a não realização de uma cirurgia para corrigir uma fratura em seu membro, constatada por meio de raio-x feito no próprio local.

As crianças inscritas no Programa de Alergia Alimentar da Secretaria Municipal de Saúde de Campos também sofrem com a irregularidade do suprimento de um leite especial. Mães denunciam recorrentemente a falta do alimento — cuja lata custa cerca de R$ 200 e o fornecimento é, muitas vezes, garantido por decisão judicial —, necessário para a prevenção de reações alérgicas e correta nutrição dos filhos.

Além disso, funcionários de empresas que recebem recursos da prefeitura vêm protestando devido à falta de pagamento. É o caso, por exemplo, dos motoristas e cobradores de empresas de ônibus do município e de funcionários de uma terceirizada que presta serviços de limpeza para o HFM.

Sofrem, também os pacientes renais do HFM, do Hospital Geral de Guarus (HGG), do Hospital Plantadores de Cana (HPC), do Hospital Álvaro Alvim, da Santa Casa de Misericórdia de Campos e da Beneficência Portuguesa, que poderão ter o atendimento suspenso a partir dessa segunda-feira (26) devido ao não pagamento de uma dívida de mais de R$ 1,5 milhão, da qual foi quitada apenas uma parcela das quatro previstas.

Por fim, é estimada, ainda, a existência de um rombo milionário nas finanças do Instituto de Previdência dos Servidores de Campos (PreviCampos), o que coloca em risco a aposentadoria dos funcionários públicos do município.

Um inventário, apenas parcial, das adversidades que deverão ser superadas pelo prefeito eleito a partir de janeiro do ano que vem. Um Cavalo de Tróia em uma guerra política que vitima apenas o cidadão campista.